domingo, maio 18

eles estão fora

terça-feira, maio 6

e porque fuligem pouca é bobagem...

segura que vou ali respirar um nico de chumbo e já volto.

sasquatch

- mas por que esses sneakers tão grandes, wandão?
- pra poguear melhor, bobinha.

segunda-feira, abril 28

pequenas empresas, grandes negócios

padaria inferno.

só aqui:
quentinho,
a toda hora,

o autêntico
pão que o
diabo amassou.

facilitamos:
pague fiado,
coma agora.

e, acredite,
tem gente que
nunca provou.

alea jacta est

só pra não morrer na praia, pulou n'água e nadou até alto-mar. não apagou, sequer afundou. teve foi uma puta cãibra.

domingo, abril 27

saco cheio

tá na edição de domingo do tablóide local:

'o cartunista e escritor ziraldo alves pinto (...) só perde a paciência quando indagado sobre a indenização de mais de R$ 1 milhão em razão de supostos prejuízos financeiros durante a ditadura militar:

- vocês já encheram o meu saco com isso. (...)'


encheram mesmo, né, ziraldo? aliás, quantos sacos dá pra abarrotar com o milhãozinho e duzentos dele, mais o do senhor sérgio de magalhães gomes jaguaribe, e as pensõezinhas vitalícias de R$ 4,3 mil mensais que os dois pobres velhinhos vão amealhar do tesouro nacional, além daquelas que já recebem - mui justamente, aliás - do inss?

preocupada com a sobrecarga desses dois ilustres septuagenários, andei matutando uma forma de ajudar os coitadinhos a aliviar tanto peso. quem sabe, então, eles doam os sacos tão cheios pras famílias de quem se fodeu de verdade com a ditadura?

a do vladimir herzog, por exemplo, foi indenizada com risíveis R$ 120 mil, há mais ou menos 30 anos. a do mário fiel filho levou a fortuna de R$ 100 mil. hoje, a viúva do operário paulista assassinado no doi-codi recebe R$ 500 por mês da previdência social. os moradores da região do araguaia que foram torturados, presos e, alguns, mortos pelos golpistas de 64 deverão receber, no máximo, R$ 100 mil cada. e lambam os dedos.

enquanto isso, na zona sul do rio, os prejudicadíssimos cartunistas douram suas sofridas peles sob o sol do leblon e matam a sede com scotchs legítimos.

o hoje desafeto millôr já sacou a dos dois vovôs malandrinhos:

'eu pensava que defendiam uma ideologia, mas estavam fazendo investimento'.

o ivan lessa lembrou que nos anos 70, quando a repressão corria solta, o pai da supermãe vendeu à caixa econômica federal a imagem do jeremias, o bom (uma de suas três dezenas de personagens, que lhe renderam muitos, mas muitos sacos cheios), pra uso nas campanhas da loteca.

a petição que circula pela rede, a ser enviada ao ministério da justiça, fulmina o que restava de dois ex-respeitáveis cidadãos perseguidos pela milicada:

'há que se registrar a cupidez vergonhosa de dois jornalistas do nível de ziraldo e jaguar, que encerram suas vidas profissionais desenhando em tinta marrom a charge da desmoralização de suas lutas e da degradação moral de suas biografias. transformaram em negócio o que pensávamos ter sido feito por dignidade pessoal e bravura cívica. receberam, por décadas, o nosso aplauso sincero. agora, por dinheiro, escarnecem de toda a cidadania, chocada e atônita com a revelação de suas verdadeiras personalidades e intenções.'

é, de saco cheio andamos nós, senhor ziraldo, que vamos sustentar mais uma vileza de quem a gente menos esperava. tô flicts de raiva.

quarta-feira, abril 23

onan

a trilha é de um comercial que leva na campeã de audiência. cousa pra promover o cedê de uma dessas bilontras que enriquecem cantando iurdices travestidas de gospel.

a letra diz:

"preciso da sua mão
vem me levantaaaar"
.

ok, eu não presto.

sexta-feira, abril 18

diversão lapidar, bicho!

e então foi a nostalgia que me fez pescar na prateleira da locadora, no finde passado, o devedê de rc e o diamante cor-de-rosa. assisti ao filme uma única vez, quando tinha idade só pra deglutir papinha, e, naturalmente, não lembrava quase nada sobre a película protagonizada pelo régio trio jovemguardiano na virada dos 60 pra década em que esta tenra leguminosa estreou no mercado.

bendita seja, pois, minha amiga de fé, irmã et camarada nostalgia que, se já me compeliu a derramar hectolitros de sentidas lágrimas vida afora, agora me chacoalhou as moléculas com violentas gargalhadas ao longo dos 97 minutos dessa gema rara da sétima arte nacional. tá, briguei um pouco com o controle de volume, porque o som do filme (a bem da verdade, como o de todos aqueles produzidos por aqui até os anos 90) põe a pessoa doente. mas saiba o prezado que o entretenimento vale o sobe e desce do vu meter, viu?

ok: o roteiro é das cousas mais estapafúrdias já produzidas por terráqueos - uma mistureba de orientais, gênios e roqueiros dantanho se estapeando por tóquio, jerusalém e rio de janeiro numa impagável caçada a um tesouro milenar. a canastrice do rei, do erasmo e da wandeca só surpreende aqueles que há pouco aprenderam a comer com garfo e faca. a maquiagem do patético japa que conduz a trama merecia virar estudo de caso da toscologia. e quem se importa com tanta precariedade quando se tem a chance de topar, logo na abertura da belezinha, com o mítico rc demolindo tudo nesse protoclipe musical (e dizer que o cara deu no que deu, hein?):



e se o punch do reizão cutuca o nosso ponto g, o momento não-posso-acreditar-no-que-meus-olhos-vêem só poderia pertencer ao tremendão, na que elegi a melhor (porque a mais sem-noção) cena do filme:



por fim, apesar de muitos jurarem que o top musical rola na finaleira da aventura, com o trio cantando é preciso saber viver (nem adianta procurar o fonograma, que o troço não existe) a bordo de um jipão que lambe o asfalto da niemeyer, a canção mais fodona de todo o filme não tem o carimbo de nenhum deles: é assinada pelo jorge ben e ouvida na voz da gal costa, numa seqüência igualmente antológica:



depois dessa redescoberta preciosérrima, ando com água na boca pra rever os outros dois filmes do roberto farias que provam que o rei já foi, sim, papo firme: rc em ritmo de aventura, aquele da célebre cruzada de helicóptero por dentro do túnel do pasmado, também no rio, e rc a 300km por hora, mais mela-cueca que os anteriores, mas não menos clássico.

oh, tantas alegrias naqueles velhos tempos, belos dias.

quinta-feira, abril 17

mardita

quarta-feira, abril 16

selvagem e burra bandeira

tava demorando. finalzinho de março, quando circulou a notícia de que a pequena isabella tinha morrido depois de ser jogada de um prédio em são paulo, antevi o óbvio: ‘em dois tempos vai ter gente a valer levantando mais uma vez a bandeira burra e obscura da pena de morte’.

tá, era fácil, mas não deu outra: começou o tenebroso bramir. são os trogloditas travestidos de justiceiros (inclusive alguns com espaços nobres na tevê e no mais afamado periódico local) defendendo a mais bárbara das punições ainda remanescentes entre nós, as gentes do 21º século depois da suposta passagem do barbudo messiânico pela face da terra.

prefiro nem entrar no mérito do julgamento antecipado (ou precipitado?), porque os indícios (eu escrevi i-n-d-í-c-i-o-s, e não p-r-o-v-a-s) contra o pai e a madrasta são mesmo cabeludérrimos. habitualmente afoita, muita gente boa da dita imprensa já os condenou e o carneirinho que atende pelo nome de opinião pública foi atrás. no entanto, nem o pavoroso serial killer que mora em mim consegue imaginar que motivo – fútil, doente, cruel – haveria para dar cabo da menina. inegável é que há fumaça ali, muita fumaça. and it stinks. mas nem por isso nos cabe vestir a toga do juiz.

agora, morte é morte, némês? nosso fim ordinário e implacável, por mais que os movidos por qualquer crença queiram nos convencer de nobres significados místico-transcendentais. o ente cai duro e acabou – sem mais joie de vivre, mas também sem mais sofrimentos terrenos; esgota-se a vida, e isto é uma bela merda, mas e daí? investir uma autoridade do poder de decidir sobre a morte de quem quer que seja não constitui homicídio fantasiado de justiça? institucionalizar o assassinato é solução aceitável? morrer pela mão do estado pune de verdade? quando um homicida filho-da-puta frita na cadeira elétrica, tem as entranhas esturricadas por veneno, o peito aberto a tiros ou a cervical partida na forca, sua incalculável dívida está mesmo quitada?

pra esta reles blogueirazinha, não importa o quão bárbaro tenha sido um crime, é sempre fácil e brando demais pagar por ele com a vida. o sujeito vai lá, massacra um pobre coitado e ganha de presente a imolação oficial, a forma de justiça mais primitiva e grotesca que há: a do olho por olho, dente por dente – aquela que corta mão de larápio, incinera incendiário, tortura seqüestrador e viola estuprador, tudo com os cumprimentos dos selvagens cidadãos que legitimam o crime pelo crime, e ainda acham que assim combatem a violência. aí o facínora morre e pronto. não sofre um tiquinho só depois que a última onda elétrica lhe cruza os neurônios. pena capital, mais do que ignorância, primitivismo, cousa de involuídos, é absolvição da dívida. é perdão eterno. só não enxerga quem não quer - ou não consegue.

e no brasil? tanto pior, meu filho, que neste torrão a justiça é frágil e caolha. até as alfaces da ceasa estão murchas de saber que somos craques em condenar, preferencialmente, não-brancos e não-ricos, já que o que dá as cartas no patropi é a lei da bufunfa. o que não falta por aqui é magistrado corrupto, erro judiciário, ladrão de galinha encarcerado e tubarão solto.

hum, capto daí um pensamento: vossa mercê esbraveja contra a pena de morte porque nunca teve alguém do seu afeto sangrado por um animal desses. e eu respondo: é verdade, jamais fui alcançada por tamanha tragédia (tóc, tóc, tóc, bato na madeira). mas juro pelos meus dentes sem cáries que se algum dia (tóc, tóc, tóc, one more time, só pra garantir) essa mão lazarenta me tocar, estou pronta a controlar meu impulso (natural, pois que humano, demasiado humano) de carnear o desinfeliz com minha própria katana, porque de fato acredito que é impossível consertar violência com violência, que não se faz justiça com sangue. isto é cousa pra selvagens, montéquios e capuletos.

e qual é, então, a minha receita pra condenar um assassino repugnante? simples: põe-se o miserento a mofar na cadeia. é, prisão perpétua nele. e como nada sai de graça nesta vida, que o atroz trabalhe seis dias por semana - como a maioria de nós o faz - oito ou mais horas diárias lidando pesado, amóde custear sua estada vitalícia no xilindró. isto sim, e não a forca, é justiça da boa. ah, faltam presídios no brasil? pois que se plante a militarada toda a erguer masmorras seguras país afora. são todos jovens, fortes e bem alimentados, podem perfeitamente cumprir esse papel de inestimável valor penal e social.

que pena de morte, repito, não é castigo, é redenção. e quem defende essa burrice colossal, das duas uma: ou goza de poucas luzes ou é tão assassino quanto o réu.

segunda-feira, abril 14

dia de fúria

era um brasileiro bem-nascido. como fosse pouco, desde seu primeiro choro a família empenhou uma bagalhoça para tatuá-lo com princípios e modos irretocáveis.

passou metade da vida repetindo 'obrigado', 'o senhor me deu dinheiro a mais', 'com licença', 'ei, gerente, achei esta comanda em branco no chão', 'não tem de quê', 'vim devolver sua valise', 'bom dia', 'obrigado, não preciso comprar uma monografia pronta', 'por favor', 'tenha a bondade de passar na minha frente', 'não insista, não vou aceitar seu dinheiro' e demais obviedades da vida civilizada.

mas toda vez que se comportava qual gente, seus semelhantes lhe dirigiam olhares assombrados. assim como se o sujeito não fosse homem, mas um etê gosmento, aedes aegypt XXL, bacillus anthracis vertebrado, bichum estranhum emergindo do pântano de descortesia e gatunagem banalizadas na terra brasilis.

chegou um dia em que a índole desabou. havia sol e algum frio. depois de devolver o celular encontrado no banco de um táxi, correu atrás de uma velhinha numa rua do centro da cidade e zapt!: navalhou a bolsa da desprecavida. riu alto. e ninguém gritou nem 'pega ladrão!'. foi a glória.

segunda-feira, março 31

anticisne

na negra correnteza
dos sonhos abortados,
o mais feroz é aquele
que se quis pesadelo,
mas veio assim, belo.

apartados no parto

quinta-feira, março 27

sábia símia

mamãe, macaca histó(é)rica, me liga no final da noite de ontem, logo depois que os reservas imortais patrolaram os amarelos de campo bom (e não me venham com o trololó de que o pobre cusco já tinha batido as patinhas):

- o grêmio reduziu o 15 de novembro a 2 de novembro...

c'est ma mère, a única cocolorada que eu amo com toda a força do meu coraçãozinho celeste.

(ah, sim: foi mesmo antológico o gol que o ex-macaco-revelação aplicou na suecada. mas vê bem a cor da camisa que ele tava usando, néam.)

terça-feira, março 11

apartados no parto

quinta-feira, março 6

inesquecível mestrezão

o mestrezão me ensinou a usar direito os porquês e a empregar a crase na hora certa.

houve mais lições, que agora eu não lembro (desconfio que uma delas era sobre a impessoalidade do verbo haver). mas juro que todas resultaram na minha relativa facilidade em lidar com as letras.

acho que foi também por causa das aulas hilárias do mestrezão, lá no universitário, que entrei na famecos em grande estilo. a saída, bom, a tortuosa saída não teve nada a ver com ele.

nunca esqueci o cara abrindo a camisa no meio da sala lotada pra exibir o peito pelado, murcho e feioso, que ele chamava, às gargalhadas, de 'selva erótica'. e tinha também aquela bisonha galinha de borracha que apavorava as colegas mais chiliquentas (tinha um nome, a quase penosa, mas agora eu também não lembro).

era um pândego, o mestrezão. e por isso (seria 'isto', mestrezão?) vai fazer uma falta danada, porque a maioria das gentes justifica seus problemas com a inculta e bela dizendo que pagou os pecados nas mãos de professores carrancudos e espartanos.

eu não. eu tive o mestrezão e, muito antes das aulas em carne e osso, houve os livros do mestrezão. sorte a minha. as novas gerações jamais vão saber usar direito os porquês. e sempre vão errar a hora certa de empregar a crase.

vai lá, mestrezão, ensinar pros colegas de eternidade como falar e escrever sem dar vexame. que lição assim, e um gênio assim, como tu, não há jeito de esquecer.

quarta-feira, março 5

terça-feira, março 4

bem-vindo faniquito

‘mas só pode ser chacota!’, berra tio aparício lá do quintal, antes de trotar pra dentro de casa, furibundo, brandindo a edição de hoje do tablóide local.

‘o problema não está em os veteranos saudarem esse ou aquele aluno, que uma cousa não exclui a outra, compreende? o vexame é que os acadêmicos da ufrgs, considerados os mais capacitados, dado o estreito funil do ingresso, deveriam dominar o idioma pátrio. mas não: os calaveiras vão lá e sujam a parede com este tumor ortográfico: bem vindos. ignoraram o hífen, minha filha! o indispensável hífen! e ninguém diz um ai sobre tamanho assassinato? onde é que nós vamos parar? valha-me, rui barbosa!’.

nem piei. o tio aparício é um tipo bem irascível, mas tá empapado de razão. mesmo que pareça exagero invocar a águia de haia por conta de um inocente hifenzinho.

segunda-feira, março 3

enquanto isso, na prefeitura mais próxima...

leio por aí que o ministério público investiga mais de 440 prefeituras em são paulo por indícios de corrupção.

arram. 440 municípios paulistas na mira da justiça. o estado todo tem 645. isso dá algo perto de 70% das prefeituras suspeitas de pura gatunagem.

ou: o rio grande do sul reúne 497 municípios. é como se houvesse quase um rio grande inteirinho roubando dentro do estado mais abastado do país.

e isso só em são paulo. imagina os outros 25 federados.

existe um jeito de limpar tanta bosta? cada vez desacredito mais. mas tem eleições municipais este ano. pelo menos dá pra tentar passar um paninho na cacaca.

agora, com perdão pela crueza, dá licença que eu vou ali na casinha vomitar e já volto.

sexta-feira, fevereiro 29

bodysnatchers

não, não. ando ausente, reconheço, mas só dos legumes. nos últimos tempos, não arrastei meus mimosos pezinhos pra além dos limites nacionais, continentais, terrenos ou estelares. e já faz tempo que sucedem cousas estranhas por estas bandas tropicais.

pois que o prezado tenha a bondade de se apropinquar pra revelar à minh'alma inquieta em que momento rolou a contaminação? quando os invasores de corpos operaram o milagre torto de transformar uma cantorazinha de tira-o-pé-do-chão-joga-a-mão-pra-cima em gran diva nacional?

quando foi que a sujeita, que nasceu, vive e vai morrer carregando a indelével faixa de brega, brega, ultrabrega virou (quase) unanimidade, arrastando hordas de seres até então considerados razoavelmente providos de bom senso para o poço fundo do repertório pobre, sujo e banguela? a tal conterrânea dos veloso já deu até cria - uma larvinha que, como a hospedeira, abusa dos saiotes doirados, penachos e do egocentrismo.

teria sido no mesmo instante em que a juventude linda, loira e vitaminada elegeu o pagodim pasteurizado como seu ritmo do coração? por onde anda a gurizada rocker d'antanho? se qualquer vivente da aurora da minha vida se declarasse fãzocão de jeitosmoleques, toquesdepele e quejandos, ganhava imediatamente um carimbo de bagaceira bem no meio da testa. agoira, não: quem contamina os ouvidinhos com frases feitas tam-tum-tic-tac-tam tá na crista da onda.

e já que é pra chutar o balde, lá vou eu: pisoteio a unanimidade desde que me assumi antifã number one dos bítols, os quatro boring guys d'além-mar. e também vedo cuidadosamente meus canais auditivos aos primeiros acordes de raul seixas, tom zé, jorge mautner, neil young e bob dylan. se bem que esses todos até têm seu valor, já que, como se sabe, o diabo só é diabo porque é velho.

agora, francamente: ivete sangalo é po-dre de chinelona.

azar, falei.


(precisava postar hoje, néam? sabe lá se vou estar viva no próximo 29 de fevereiro).

domingo, fevereiro 17

babel, merrrmão!

dia 18, agora, tá fazendo dois anos que os vovozões dos três acordes compactaram de vez as areias de copacabana (a propósito, o esperadíssimo devedê chegou custando uma fábula, mas não pode faltar na prateleira de quem engrossou a muvuca).

pra louvar aquele dia inesquecível, ressuscito a historinha que postei na volta da aventura, num espaço protolegumes:

eu e eva no leme, bem aboletadas na areia amóde incendiar o mate, minutos antes de começar o maior espetáculo da terra.

aproxima-se a figura crestada de sol. o estereótipo da carioca suburbana, uma espécie de tati quebra-barraco com um pouco mais de instrução e muito menos banha. uma raimunda com diploma de primeiro grau, pronto.

a maravilha da retórica malandra chega naquele sotaque da gema, apinhado de vogaissh eixtraissh e eisshtendidaissh, érressh puxadoissh e ésseissh eixhtremoissh:

- eaiiee, coléaga. forrrrtalece o isshquêro, aie, tem coandiçããum?

forrrrtalecemoissh, claro.

sábado, fevereiro 16

haverá sangue

yes, o nome original é disparado melhor que o mixuruca sangue negro. mas isto é só o início da conversa.

é que o daniel day-lewis quebra tudo, enquanto o paul dano e o dillon freasier trituram os despojos. e o p. t. anderson, mais uma vez, pare uma película estarrecedoramente fantástica.

a narrativa linear soa diferente das que ele normalmente põe na roda, mas nem por isso faz do filme qualquer cousa menos que masterpiece.

e ninguém duvida mesmo de que o troço é um clássico recém-nascido depois de sobreviver àquele início perturbador - e pelado de palavras -, notar a quase ausência de personagens portadoras de ovários e ficar de quatro com a fotografia pra lá de fodona.

olha, do jeito que a fita periga se empanturrar de estatuetas, é melhor correr pra garantir logo o lugar na fila. demorou.

(valeu o programaço, amiga planta!)

segunda-feira, janeiro 28

anactrônica

máquina que dá pau. e-mail que dá pau. backup que dá pau. rede local inacessível. internet inacessível. todo o teu trabalho inacessível.

hay dias que bate uma saudade morna daquele tempo em que o máximo de merda eram os dedos podres de tinta pra trocar o rolo da olivetti lettera.

e as margaridas da ibm elétrica, hein? ai, que saudadêra das margaridas das gordotas azuis.

quinta-feira, janeiro 24

lambe-lambe

e havia
(cruzes!)
o velho
de olhar
tão vasto

que quase
embaça
quando
embesta
de habitar

o terreno
estéril da
vida que
já foi
vivida

e não volta

quarta-feira, janeiro 23

mundo cão, mundo bão

embora sempre haja coiós pra considerar a internet uma bolha maligna com vida própria, criação do tinhoso pra desencaminhar de vez a pobrezinha da raça humana, tenho pra mim que a grande rede não passa de só mais um meio, uma outra via pra reproduzir em hi-fi o nosso mundinho, que tanto pode ser triste como colorido, né mesmo?

pois em tempos de reinado absoluto desta fartura de possibilidades, como, por exemplo, apresentar pra um filho o pai que ele nunca conheceu, porque morreu dois meses antes dele vir ao mundo? blogando, claro. pelo menos é assim que a cristiana guerra, publicitária de minas gerais, tenta resolver uma de suas contendas com o destino - ela que é órfã de pai e mãe e já perdeu dois nenês.

aí, sem qualquer aviso, o coração do namorado, o também publicitário guilherme fraga, parou de bater em janeiro do ano passado, quando o filhote deles ainda dependia só do cordão umbilical.

pra mostrar pro pequeno francisco, no futuro, o quanto seu pai era bacana, e também pra exorcizar uma dor assim, descomunal, cristiana respirou fundo e pôs mãos à obra. o resultado é um tocante diário sobre sua história de amor tragicamente interrompida. um relato valente e terno, que não deixa cair a peteca da nova paixão, o cisco, como ela chama o seu toquinho de gente.

mas esse é só o foco comovente da cousa. que a publicitária mantém outros dois blogs pra escancarar mais um causo de amor, agora com a moda. aqui ela posta fotos de seus looks diários e aqui, no melhor estilo brechó virtual, passa nos cobres os modelitos que já cumpriram seu papel na produção dela de cada dia.

um só vivente, infinitos ângulos. a internet, ignoram seu bobos críticos, é só o reflexo irretocável da experiência humana na terra bem assim como ela é: tonta de dramas e risos. e nada mais.

domingo, janeiro 20

ave, irmão de cor!

regozijem-se! ele voltou.

desnecessário dizer que com preciosidades.

quem não assinar o feed é mulher do padre.

sexta-feira, janeiro 18

e se o povo desse um tempo nessas de fazer carro e filho, hein?

o mundo
já tem gente e
autos demais.

chega de
recém-nascidos e
carros zero.

quer
herdeiros e
carangas?

tenha só
os que já
existem por aí.

sábado, janeiro 5

maior que a imagem

a safra de final de ano rendeu bastante alimento pra cabeça desta que vos rabisca.

um dos acepipes é o só numa multidão de amores, biografia da atormentada maysa lançada pelo jornalista cearense lira neto em meados do ano que expirou, e que eu, confessa apaixonada por histórias reais, tava há horas namorando.

além do fato de ser a autora e intérprete da antológica fundo-do-poço meu mundo caiu (cuja primeira gravação, aliás, completa 50 anos agora em 2008), eu sabia quase nada sobre a soberana da fossa. e sempre que ouvia falar sobre ela, duas únicas imagens me vinham à cabeça: os inconfundíveis olhões verdes e a macabra brasília azul toda retorcida sobre a ponte rio-niterói, resultado do acidente que a matou no início de 1977.

tá, também sabia que era dela a (pelo menos pra mim) versão definitiva de 'ne me quitte pas', mas não muito mais que isso. então, motivada pela leitura, fucei a web atrás de vídeos e quejandos, e acabei descobrindo o número que segue:



implico com aquela base de repertório bregadarkpassional da finada, mas depois de devorar o livro, e vê-la cerrando os dentes enquanto vomita a dor da canção de jacques brel, começo a desconfiar de que ela era mais, muito mais que um belo par de olhos e a maluca etílica que cortou os pulsos incontáveis vezes antes de se espatifar a caminho da então desabitada maricá. baita figura essa maysa, viu? baita figura.

isso tem que ter fim

mui bela e oportuna a campanha lançada pela rbs pra combater a violência no trânsito. acerta em cheio essa gurizada que enche a cara e sai a zunir rua e estrada afora com seus autinhos e motinhas potentes.

mas teima em ser berrada uma perguntinha incômoda: estaria o responsabilíssimo conglomerado dos sirotsky disposto a renunciar aos anúncios de montadoras e revendas de bólides, em nome da redução de acidentes?

yep, porque só os ignorantes, míopes e mal-intencionados não relacionam o torra-torra irracional de veículos automotores ao aumento insuportável das ocorrências, fatais ou não, de trânsito. as pessoas não têm casa, mas têm carro. e carro, como se sabe, é arma voraz nas mãos de quem não reúne equilíbrio suficiente pra guiá-lo.

precisa nem ser muito esperto pra juntar lé com cré: quanto mais condutores afoitos, despreparados e inexperientes circularem pela tupinilândia, mais incharão as estatísticas da carnificina motorizada. fundamentalmente num país em que a fiscalização ou inexiste ou é vaptvuptmente corrompida, a educação é pífia e os investimentos que poderiam qualificar as malhas viária e rodoviária vão parar em obscuros cuecões.

eu aposto a carteira de habilitação que jamais cobicei que se a sanha da indústria automobilística fosse minimamente aplacada, o número de acidentes despencaria num estalar de dedos.

e aí, rede brasil sul, que tal contribuir de verdade pra civilizar o trânsito?

quarta-feira, dezembro 19

gabba gabba hey, véia do bazar!

riram a valer de mim no indefectível almoço de final de ano da firma. mas é a mais cristalina verdade:

tive certeza de que tô envelhecendo a olhos vistos quando percebi que deixei de gastar meus caraminguás em loucas noitadas, tragoléus e afins e passei a investir, com inegável prazer, em lençoizinhos de malha, macias fronhas, loiças coloridas, talheres estilosos, panelas de ferro, copos e taças retrô e outros petrechos domésticos.

ALERTA AMARELO: se eu começar a assinar revistas de bordado e crochê, ou desenvolver um súbito gosto por bibelôs de biscuit, não hesitem em me internar num bom pub. e só me resgatem de lá depois de estarem convictos de que eu limpei os estoques de geladas embalada por tonitruantes petardos de punk rock.

ou será que serramalte e três acordes toscos também viraram peça de museu?

na ponta do lápis

segunda-feira, dezembro 17

pane no sistema. alguém me desconfigurou

há dias em que a pessoa só funciona em modo de segurança, néam.

a grandeza não é pra qualquer um


nhé! tá na vocação e no talento a clara diferença entre nós, os celestes campeões imortais, e eles, os pernetas vermelhos do aterro.

o herói supremo do nosso título mundial é o renato portaluppi, gênio da bola, ex-craque da seleção, técnico vencedor - segue firme no fluminense, campeão da copa do brasil deste ano e quarto colocado no brasileirão - ídolo eterno da nação tricolor.


o deles, coitados, é o gabiru, zero à esquerda rejeitado até pra festinha que tenta ressuscitar aquele golpe de sorte do ano passado.
a prova da insignificância é o anúncio do timinho publicado hoje no zero hora: não tem uma só foto do perna-de-pau que fez o gol salvador, mas logo foi descartado pra ir enganar no desnutrido sport, 14º no campeonato brasileiro deste ano. baita injustiça! que, afinal, a nulidade do sujeito combina em tudo com a história cocolorada.

é, enquanto eles enchem a boca pra dizer fifa - sim, sim, aquela instituição que desautorizou publicamente o uso de seu nome nos neons do chiqueirão... -, nós, únicos bicampeões da libertadores na região sul, seguimos sendo infinitamente superiores a eles. em tudo, em todos os tempos.

domingo, dezembro 16

sexta-feira, dezembro 14

esfolando as pick ups aqui de casa

atende pelo nome de onde brilhem os olhos seus o primeiro cd solo da vozinha mais cutecute do pop nacional.

toda a catega do repertório da nara leão agora arejada pelo modo john de arranjar e takai de cantar. e que outra insuspeitada dupla caberia feito luva nesse projeto?

tá esperando o que pra arrombar o cofrinho, meu bem?

quinta-feira, dezembro 13

fome, fasma e foda com falta de bufunfa

viver com pouca grana, em qualquer parte do mundo, faz do sujeito um criativo de primeira grandeza. pués 3 efes, que estreou semana passada com um sistema de distribuição e exibição bem arrojado, é pobre mas limpinho - e é disparado o melhor filme do gerbase (que me perdoem os entusiastas do longínquo verdes anos).

o orçamento magro grita na tela (mas tenho pra mim que uma boa história sempre é mais saborosa se vem de uma boca desdentada) e respinga no recrutamento de um elenco irregular. entre veteranos e debutantes, o desempenho do craque leonardo machado é anêmico, enquanto a ana maria mainieri parece tri à vontade no papel de amiga de programa. e a cena que mostra a tia e a sobrinha ensaiando gemidos pra engambelar a clientela é de dar barrigadas.

ainda não assistiu o filme? veja djá, que tá facinho de conferir.

quarta-feira, dezembro 12

a redenção do colesterol

fui almoçar com mamã lá pros lados da praça da matriz, em volta da qual, pra quem não é local, se assentam as sedes gaúchas dos três poderes. reduto, pois, de toda sorte de matreiros.

mandando ver num pratarrão de carnes mis estava um conhecido político, candidato recorrente a prefeito e, acho, governador, pelo partido verde.

deve ser cegueira minha, mas sempre imaginei que as gentes do pv eram adeptas do veganismo. ou me enganei, ou o homenzinho ora chafurda gostosamente na bendita proteína animal.

seja como for, num país em que o presidente-operário hoje se proclama centrista, não há mal algum em um greenglutão trocar o tofu por uma picanha sangrenta. ou há?

relaxaí, jodie foster!

44 anos vivendo trancado, folheando revistas bem longe dos olhos da eterna noiva, freqüentando chats de putaria entre iguais. ‘é hoje’, pensou, enquanto manobrava o carro pra fora da garagem. ‘é hoje que eu saio do armário’. e um sorrisinho bobo lhe rasgou a boca. e um súbito arrepio ordenou a todos os pêlos do corpo na meia-idade: ‘em pé, seus moleirões!’.

ele não sabia bem por quê, mas tinha decidido que naquele dia, o tão esperado dia da parada gay, finalmente assumiria o que não tinha sossego, nem nunca teria.

só não contava com o engarrafamento na principal via de acesso ao parque. precisava alcançar a alegre romaria rápido, porque a coragem poderia se esvair ou, quem sabe, a multidão colorida se dispersaria antes que ele conseguisse vaga pra estacionar. e então tudo estaria perdido.

depois de 24 minutos mergulhado na tranqueira, parou na última sinaleira antes da rua apinhada. segurou o rosto vermelho entre as mãos suadas, alisou a cabeleira gris e cometeu o erro fatal: olhou pra esquerda e identificou na calçada, prestes a atravessar a rua, a septuagenária professora primária. aquela vaca que, dezenas de anos atrás, tinha convocado pai e mãe pra denunciar a estranha amizade entre o primogênito semi-alfabetizado e o estranho efebo do colegial.

ali, no cruzamento, quase quatro décadas depois daquele dia, ele voltou a ser o garotinho pálido e quebradiço do colégio de padres. a velhota encarquilhada nem olhou pra ele. mas o coitado sentiu o mijo empapando as calças, o banco do carro, escorrendo pro tapete de borracha.

ato contínuo, pescou o telefone sobre o console quente e discou os oito números da besta. ‘hermínia, minha filha, vamos nos casar em um mês’. e assim foi. civil, religioso, pais, padrinhos, arroz e bolo. morreu seis meses depois, assassinado por um travesti bêbado incomodado com a concorrência.


moral da história: do jeito que anda o trânsito, na hora de bater ponto num compromisso importante é melhor deixar o carro em casa e ir a pé. ou: bem fez a jodie foster, que finalmente se desarmou.

segunda-feira, dezembro 10

me chama de krishna

embestei que queria meu cabelo azul.

comprei tonalizante e fiz a eva tascar a mistureba anil no meu côco, em casa mesmo.

25 minutos depois, tudo estava azul num raio de um metro à minha volta. box, cortina, tubos de xampu, sabonete, buchas e, principalmente, EU. com-ple-ta-men-te azul, da cabeça ao pés. até minhas unhas, docemente pintadas de renda um dia antes, ficaram ridiculamente azuis.

levei quase uma hora me esfregando vigorosamente com um esponjão áspero até voltar a ser branquela. só o que não ficou azul foi, adivinhem!, o meu cabelo. tonalizante, descobri tarde demais, não cobre direito as madeixas brancas que me atormentam a vaidade. inda mais se o tom for azul, que só vinga mesmo numa cabeleira previamente descolorida.

agora não sei se me matriculo na magno alves ou radicalizo num violento moicano.

malditas cãs.

ponto final

quem disse
que eu sei
onde fica o
fim da dor?

afundar é
pra poucos,
meu amor,
e quem volta
esquece o
caminho

se você quer
uma pista,
pergunte
pro enforcado,
aquele ali
na esquina

só ele sabe
onde é que
tudo termina.

quinta-feira, dezembro 6

belezumes

credores satisfeitos e conta azulzinha, com algum pra gastar em mimos.

cante com a vagem

pena de vida

(pedro luís)

eu assinei a pena de vida
sou a favor da pena de vida
se o sujeito cagou
pisou na bola
tem que resolver aqui nao pode sair fora

tem que encarar
e cara a cara
cortou o barato
paga caro
mas paga vivo
e vai correr, correr
correr,correr
e vai correr perigo

sabendo que comprou
uma carteira permanente de inimigo

horripilanças

luzinhas (piscantes ou não, multicoloridas, brancas, o que for). bonecros escalando sacadas. vermelhos, verdes e doirados à exaustão. guirlandas, sininhos e lacinhos. renas, peles, botas, veludos, rabanadas e nozes no natal tropical. hohohos. celulares tocando jingle bells. shopping centers. et cetera.

tô me metamorfoseando numa sujeita-olina ou esse frenesi de natal torra mesmo a paciência?

sexta-feira, novembro 30

quinta-feira, novembro 29

ta-tumtum-shhhpá

toquei bateria imaginária quase a manhã toda.

os vizinhos amaram.

segunda-feira, novembro 26

de mãos dadas

não lembro muito bem como foi. eu era um toquinho, tinha uns 4 anos, no máximo. a maninha, ainda solteira, adorava brincar de mãe comigo e com a carol, as primeiras sobrinhas. então, numa tarde, eu fui com ela ao súper.

metida a adultinha, não quis me aboletar no carrinho: preferi ir no chão, de mão com aquela tia linda e engraçada e sempre cheia de novidades coloridas e modernas.

sei que a gente entrou num corredor, eu sempre grudada na mão dela, e ficamos (o que me pareceu) horas escolhendo alguma bobagem pra mim. dali a pouco, fui perguntar qualquer cousa pra ela e, quando olhei pra cima, não era mais a tia que segurava a minha mão: era uma mulher que eu nunca tinha visto na vida.

em pânico, me soltei da estranha e procurei a maninha, que tava no início do corredor, igualmente assustada, me catando com os olhos. corri pra ela e agarrei bem firme aquela mão familiar, pra não soltar tão cedo. até hoje não sei o que rolou. devo ter me distraído, destrambelhadinha desde pitoca, e trocado de mão sem perceber.

só o que restou daquela experiência foi a sensação apavorante que tive ao olhar pra cima e não reconhecer quem me segurava. uma tontura desagradável, o sangue congelado nas veias, o chão sumindo, o coração como que despencando no vácuo, trocando de lugar com o estômago embrulhado.

rigorosa e exatamente o que senti na quinta passada, dia 22, quando tocou o telefone e era a minha mãe com a surreal notícia de que a maninha tinha ido embora pra sempre, depois de não conseguir voltar da quarta parada cardíaca durante uma cirurgia de lipoaspiração em floripa, onde ela tinha se escondido há oito anos, depois de perder a filha tão amada.

o mundo parou ali pra minha cabeça rodar feito há 32 anos. na seqüência, vieram todas as cenas que ficaram gravadas da nossa relação nem sempre calma, mas cheia de passagens emocionantes e, na maioria da vezes, ternas e felizes.

numa noite quente do final de 1977, eu entrando de aia na nave da igreja santa terezinha, junto com a carol e a fernanda, no casamento da maninha com o caetano.

a minha boca aberta diante da sala de bagunça do primeiro apê deles, na descida da ramiro: toca-discos reluzentes, equalizadores, amplificadores, luzinhas piscantes, a maior coleção de vinis que eu já vi na vida, os inovadorérrimos videocassete betamax e o atari plugados na tevê, generosamente liberados pra nossa curiosidade infantil.

a maninha, aproveitando o sono pesado do caetano, pintando as unhas das mãos dele e depois dizendo 'ah, a acetona acabou e eu não posso sair pra comprar outra, porque tô tomando conta das gurias. vai lá na farmácia e compra tu mesmo, que eu tiro o esmalte pra ti. hahahahaha!'. e ele foi.

aquele natal em que eu e a carol ganhamos dos dois tios adorados uma barraca de brinquedo que virou nosso refúgio favorito.

todos os natais na casa da minha vó, quando eles chegavam lotados de sorrisos e pacotes brilhantes pra todo mundo.

eu furiosa, uma criancinha indomável que, quando contrariada, me ajoelhava e batia a cabeça no chão, aos berros. até o dia em que ela repetiu o ritual, bem na minha frente, e eu pude ver o quanto aquilo era insano. e nunca, nunca mais desfilei com galos gigantes na testa.

eu dizendo pra ela, que sempre tinha palpite pra vida dos outros, meu primeiro 'vai à merda, pô!'.

ela na maternidade, toda babada com a tão desejada tetê no colo, depois de três sonhos precocemente interrompidos. e eu, que de tão emocionada, ‘fiquei mocinha’ exatamente naquele 20 de maio de 1983.

nós em alegre bando num comboio pra torres, no verão de 84: eu e o caetano na frente, de bugue amarelo lotado de traquitanas, e ela atrás, com a tetê, num voyage 0km entupido de felicidade.

naquele mesmo verão, as nossas lágrimas comovidas, ouvindo o que a gente imaginava serem as primeiras sílabas da tetê (que a maldita paralisia cerebral nunca permitiu que se transformassem em palavras inteiras).

eu indo dormir na casa deles e os jantares suculentos que a gente inventava com as sobras da geladeira.

ela me levando no colégio, com a tetê toda risonha na cadeirinha do banco de trás do auto.

o meu orgulho de dizer pros amigos que a minha tia já tinha faturado ‘uma porção de prêmios de propaganda, até aquele tal de profissionais do ano, sabem?’.

ela, em choque, abraçando o caixão do caetano, depois do acidente estúpido que nos arrancou aquele cara bonachão e pleno de vida. e que me roubou o tio que foi meu pai, quando o verdadeiro preferiu outros caminhos.

de novo em torres, no verão seguinte à perda do caetano, a maninha clicando o meu retrato mais bonito de todos os tempos.

ela, parceira e debochada, me levando pra noite - uma festa chamada 'calor na bacurinha', em que, pra honrar o mimoso mote, cada uma foi pra um lado com seu respectivo rapazola. fizemos misérias e, depois, morremos de rir contando os detalhes uma pra outra.

ela, guerreira e devotada, criando sozinha uma filha linda, doce e carinhosa, que não falava, não caminhava, não quase tudo.

eu abraçada nela, no velório da tetê, dizendo 'tu não tá sozinha, minha véia, todo mundo aqui e eu te amamos muito'.

em floripa, a gente tomando cerveja num dia ensolarado no campeche, e lamentando a partida da cássia eller.

eu e a eva num aniversário dela, toda felizona, rodeada de amigos fiéis e canecões de chope.

no hospital, com a vó milinha perdendo a batalha de 15 anos contra o alzheimer, ela nervosa, fazendo cena com a chegada da minha mãe, com quem a relação sempre foi problemática e instável. eu levantando a voz com ela e pedindo respeito pelos últimos dias de vida da vó. eu magoada e, covarde, sem fibra pra limpar os pratos.

o e-mail que recebi dela no meu aniversário deste ano, que dizia bem assim:

Oi, Mimoca, minha sombrinha.

Feliz Aniversário, queridona. Tudo de bom de tudo que é bom pra ti, minha véia, ops, minha jovem sobrinha. Rsssss. Não te vi online e pensei: como posso beijar a minha sobrinha querida?

Aceitas beijinho desta tia ausente, bipolar, esquisita? Que o teu dia seja lindo e que o universo conspire para que todos os teus desejos se realizem neste novo ano. Beijos na Eva. Se vierem pra cá ou por aqui me avisem. Tenho saudades das risadas.

Te adoro, viu?

Beijooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

Maninha


e que eu, empedernidamente orgulhosa, não agradeci.

e agora esta ausência que não tem mais volta. e a raiva de mim mesma por não ter tido o peito e a humildade de dizer a tempo ‘ei, sua velha tia papuda ausente, bipolar e esquisita, a vida é curta, e é uma imbecilidade a gente perder tempo remoendo bostas. eu te amo, viu? te amo pra caralho!’.

apesar de não acreditar, tudo o que eu quero é que exista, sim, alguma cousa qualquer depois da vida. e que a maninha agora more numa estrela tão bonita quanto ela era. e, de lá, tenha a certeza de que eu vou sentir falta demais de segurar a mão dela.

fica bem aí, tia papuda, que, por aqui, a gente vai se virando.

sábado, novembro 17

it's enough to make one sick

não sou (muito) fresca, juro. só refugo mesmo quando o negócio é sangue, agulhas e quejandos, hospital e dor.

mas esse troço aqui me fez correr pro banheiro qual donzelinha ultrajada. oh, disgusting.

sexta-feira, novembro 16

ela que era triste riu

faz um tempo já. foi em setembro, rolava o porto alegre em cena.

fui tomar um café com a fernanda e ela me disse que conhecia quase nada do vitor ramil, tinha vontade de ouvir cousas do nosso barão de satolep. prometi que selecionaria o que eu considero a nata do cara e mandaria pra ela, que mora em berlim.

ouvi inteirinhos em seqüência, numa overdose, os álbuns que tenho aqui - tango, à beça, tambong (as duas versões, em português e espanhol) e longes - e pincei 30 canções. foi aí que a cousa tomou forma.

comecei a me sentir tristona da vida. chorava do nada, por nada. via criancinhas saindo do colégio de mão com as babás e desabava. passava na rua por carroceiros com cavalos raquíticos e me debulhava. ia nadar, planejava as cousas que tinha pra fazer durante a semana, almoçava, lia o jornal, via um comercial na tevê e pimba! lágrimas, soluços, peito apertado.

de onde vinha aquela tristeza toda? sabe lá. tava com as pílulas mágicas em dia, tudo certo, sem maiores angústias. sei que acabei desencanando, não ouvi mais nada do pelotense ilustre, e a misteriosa melancolia foi embora.

lesada, só há pouco me dei conta do que era (eu, que tenho meu palpite pra origem da tristeza crônica que abate a minha, a sua, a nossa geração).

fui tomar banho e programei o player pra tocar tambong no talo. no meio de valérie, ensaboando o lombo, comecei a chorar. assim, do nada. lágrimas grossas, pesadas.

sim, a origem da minha petit deprê é o vitor ramil. são aquelas harmonias de retalhar os pulsos. as melodias cruciantes. maldita estética do frio.

pior é que eu curto o cara. de verdade. vou pedir pro doutor felicidade um reforço na bupropiona. pffts! era só o que me faltava não poder mais ouvir o vitor.

terça-feira, novembro 13

cansou da comida de sempre?

estando no minho, e na mão, vá a'os telhadinhos.

(recebi do enorme c.a.t.)

quarta-feira, novembro 7

epidemia

diamante recolhido no monturo de lixo da tevê aberta:

a vida é uma doença sexualmente transmissível.

suíte:
tio aparício me repreende pela ignorância e desleixo: 'a frase é do ronald laing, bobinha. e tem um complemento imprescindível: 100% fatal. homem arrojado demais pro meu gosto, mas bom, esse laing'. então tá creditada a máxima, tio.

terça-feira, novembro 6

mais do mesmo do melhor

under the mountain, a golden fountain:


your former glories and all the stories:

segunda-feira, novembro 5

vaca azul vai me proteger enquanto eu andar distraída

anos 70, paralelo 30:

'mamanhê o que é cente, onde é que fica isso?', anseia a pequena vagenzinha.
'cente, filhote, como assim?', tenta clarear a consultada.
'cente, mamãe, cente. naquela música do sítio do pica-pau amarelo, o homenzinho canta: o sol NA CENTE é tão belooooo'...

a meninota também gostava de ouvir a avó conversando com as tias. e saía a repetir no colégio as expressões correntes em casa. ou quase:

'iolanda, tu não fez o tema? iiih... agora é tarde, inês é MARTA', papagaiava a precoce adoradora de frases feitas. sem, na verdade, entender o motivo da tal inês trocar de nome, e por que raios a cousa era tão trágica e definitiva.

os dias eram assim.

sexta-feira, novembro 2

bonde dos miolos entrevados

já repararam como a garotéia de hoje posa pra (toda e qualquer) foto diiishcontraííída? é fácil, são só dois estilões:

um
inspirados nos rappers, os marmanjos fazem cara de mauzão e exibem as patinhas dianteiras com indicadores e médios (às vezes também os polegares) horizontalmente estirados, abertos qual tesoura ávida.

outro
tocadas pelo espírito do funk periférico, as mocetonas capricham na expressão uiuiui e flexionam as pernocas, mãozinhas postas sobre os mocotós, empurrando as buzanfas pra trás no melhor estilo cachorra.

tem alguma cousa maligna desconhecida na água de beber ou será que foi mc'donalds demais e idéias próprias de menos?

e o que esperar do futuro, aijisuis? hordas e hordas fustigadas com bico-de-papagaio, apatia, artrite, alheamentos, fisgadas no ciático e toda a sorte de infelicidades ortopédicas e mentais. o apocalipse já começou.

quinta-feira, novembro 1

ortodoxo

o tio aparício é homem de curar dor de barriga com elixir paregórico. a maior concessão que ele faz à modernidade é escrever cartas semanais pra noiva octogenária, que mora em canguçu, numa olivetti lexicon 80.

dia desses, o sobrinho geek cismou de mostrar pro tio as maravilhas do last fm. foi soar o primeiro acorde de 'por una cabeza' e o troço desandou a mais carregar que tocar. rodava dois segundos, estacava cinco. lá pela quinta série de toca-pára, aparício perdeu a paciência:

- mas esse tal de bufferizando é pior que coito interrompido, che!

e foi fazer um escalda-pés no quarto de banho.