segunda-feira, dezembro 4

quem não tem sonex isola com pena de ganso ou minha história de natal

sábado agora, a caminho do almoço no barranco, enxerguei uma figura que não via há anos: o bernardinho (o nome real foi trocado por razões cristalinas). ele, o mito, a personagem principal da minha história de natal favorita.

foi em 1999. eu tinha acabado de me mudar pro lugar mais legal onde já morei - aquela casinha-com-cara-de-garopaba, sobre a qual já falei aqui, erguida na rua mais zen do ipanema, sem saída pra avenida guaíba, detalhe que me mantinha saudavelmente distante da crowd que inferniza o bairro da zona sul nos finais de semana.

pois bem, aquele ano tinha sido bem agitado: passamos a régua no bilbao; eu tomei coragem pra abandonar o conforto da casa da mamãe; levei um tempo produzindo teatro e terminei caindo com as quatro patinhas dentro da radioativa, lugar onde sempre quis trabalhar, pela companhia diária de amigos queridos e pela produção de áudio, minha baita paixão profissional.

por tudo o que acontecera, então, decidi que aquele seria o primeiro natal que passaria na minha própria casa, sem maiores compromissos familiares. a caca, que morava comigo na época, ia esperar o papai noel com a turma dela, no interior, e eu testaria minhas aptidões à beira do fogão com o tradicional cardápio natalino do clã aragón: peruzão assado, creme de milho, banana à milanesa e salada de repolho, presunto e passas.

chamei cobaias, claro. pra ceia viriam o picles e a irmã dele, a carla. pra beberrança pós-meia-noite, uma tropa de dementes que freqüentava o finadinho bilbao. gente profi na arte de se divertir, alucinar e embriagar. entre eles, o nosso bernardinho, sujeito muito bacana e beeem baixinho, que andava se enroscando eventualmente com a mais porra-louca das amigas do boteco - cuja boca grande nos revelara, desde o início do affair, as dimensões muy modestas dos, digamos, apetrechos reprodutivos do pobre.

com a comilança aprovada e a digestão feita, iniciamos a etapa etílica da festa. e que bebedeira! farrancho fortíssimo, a noite de natal rendeu até o céu clarear completamente. na hora de ir embora, o bernardinho, já trôpego, mas lúcido o suficiente pra sentir que não dava pra dirigir de volta pra casa, pergunta se ele e a ficante poderiam dormir por ali mesmo. claro que sim!, respondo eu, já sobraçando colchão, lençóis e travesseiros pra jogar no meio da sala preles.

sem qualquer sono, vou pra minha cama e fico fritando, reloadeando os momentos mais insanos da noite. é quando o óbvio dá as caras e começo a ouvir aqueles arrulhos típicos das maratonas de alcova. aiaiai, uiuiui, rerere, ohohoh... aiaiai, uiuiui, rerere, ohohoh! aiaiai, uiuiui, rerere, ohohoh!!! buenas, pra não morrer de sede em frente ao mar - mas, fundamentalmente, pra não constranger os pombinhos com as minhas risadas - meto a cabeça debaixo do travesseiro e tento dormir.

impossível. a curiosidade, o álcool e todas substâncias hiperbolicamente ingeridas durante a noite mantêm meus olhos feito patacões e meus ouvidos atentos a tudo. e vá aiaiai, uiuiui, rerere, ohohoh... aiaiai, uiuiui, rerere, ohohoh! aiaiai, uiuiui, rerere, ohohoh!!! até que, com calor, livro uma orelha do bloqueio de penas e o ouvido espertinho, por dever de ofício bem acostumado a identificar toda sorte de timbres e frases e tons, capta a maravilha:

- aaaaaaiii, bernardinhoooo! é pequeninho, mas machuca!

naquela manhã, descobri o incrível poder de isolamento acústico das penas de ganso.

sexta-feira, dezembro 1

i heard it through the grapevine

demorou, mas caiu na rede. pro meu gosto gaiato, é o melhor momento do telejornalismo gaúcho nos últimos 493 milênios e meio...

cosa nostra, tutti buona gente!

e os nossos magistrados, hein? não bastasse o excelso legislativo, quem tem um judiciário assim, não precisa de gângsteres...

isso me lembra de fazer uma corruptelazinha daquela música do pedro luís e a parede: 'de porto alegre ao acre, a safadeza só muda o sotaque'.

quinta-feira, novembro 30

o fim da mortal fedentina

fumei meu primeiro cigarro com uns 11 anos, aprendi a tragar com 13 e dos 17 em diante virei fumante regular. comecei com marlborão, depois experimentei uma dúzia de marcas e caí no marlborinho, até terminar no free azul. nunca pitei muito, jamais consumi mais de uma carteira por dia. mesmo já atolada no fumacê, nunca fiz aquilo que denuncia o fumante irremediável: acender unzinho meio centésimo de segundo depois de acordar - meu primeiro cigarro do dia vinha só depois do café da manhã. o período em que mais fumei foi entre maio de 1998 e abril de 1999, quando a gente teve um café-bar, o bilbao, ali na república - tempos difíceis aqueles em que, pra enfrentar as noitadas, abusava da fumaça industrial e das cervejas que congelavam.

em junho de 2003 tive a pior gripe da minha vida inteira e fiquei sem fumar por uma semana. aí, aproveitei o embalo e decidi suspender de vez o vício. quatro meses depois, trabalhando na assessoria de imprensa da 4º bienal do mercosul, atucanada com tanta coisa pra fazer, tive uma recaidinha que durou só o tempo das minhas crises de enxaqueca aumentarem em freqüência e intensidade. desde lá, a relação mais próxima que estabeleci com o bicho-papão cilíndrico foi segurar um ou outro pito pros amigos, enquanto eles amarravam os sapatos, atendiam o telefone ou ajustavam o volume do som dentro do auto, qualquer coisa assim.

o curioso, mas banal, é que eu sempre tive certeza de que não ia conseguir parar. achava a vida sem cigarros tão sem graça quanto assistir a um filme no cinema com a luz acesa ou trepar sem gozar. mais: ridicularizava a patrulha antitabaco e não entendia como os ex-fumantes podiam ser tão avessos ao antigo amigão. talvez meu antidepressivo tenha ajudado, talvez o pavor das enxaquecas tenha me mantido longe do futum; o fato é que hoje me orgulho furiosamente de ter conseguido parar e abomino os pitos sem qualquer nesga de saudade - mesmo ainda faltando me livrar de dez quilos dos 30 que engordei depois de encerrar a carreira de fumante. na verdade, me tapei de um tal horror à fumaça de cigarro que deixo de freqüentar qualquer ambiente diante da ameaça de sentir aquele fedor medonho, mesmo que a origem do mal esteja a léguas de distância de mim. considero, mesmo, o sujeito que fuma cigarros um jegue estúpido, um suicida retardado, um maníaco queimador de dinheiro, um doente teimoso e ignorante, um assassino com sorriso amarelo e bafo imundo, um imbecil defumado. azar, falei!

pois então, depois de perder o gilnei pro cigarro e de chantagear descaradamente a eva pra ela parar de vez com essa merda, resolvi recrudescer. antes, os adictos que me visitavam tinham que pitar na janela ou, tanto melhor, no fumódromo da área de serviço. agora deu: cigarro não entra mais aqui em casa. quem quiser fumar que trate de fazer a nojeira burra na rua, bem longe de mim. sem restrição, mesmo, só pros não-fumantes e pros ex-fumantes de industrializados. esta lei entra em vigor agora. e revogam-se todas as disposições em contrário. tenho dito.

terça-feira, novembro 28

estética do chip

o cat, além de ser um anfitrião a-do-rá-vel nas nossas andanças pelo rio de janeiro, é um inesgotável manancial de troços internéticos bacanas. recebi dele a dica do 99 rooms e recomendo a viagem.

trata-se de um projeto que começou na internet em 2004 e há pouco ganhou uma versão em cd-rom. a idéia, gestada nas cacholas de quatro jovens alemães envolvidos com arte, fotografia, som, animação e programação, é fazer o sujeito passear virtualmente por galpões industriais desertos na finada berlim oriental, tudo devidamente manipulado digitalmente pela turma de artistas.

melhor que explicar é conhecer a cousa. mas é recomendável ter uma conexão de alta velocidade e pelo menos uns 20 minutos de sobra pra gastar espiando os 99 salões cheios de surpresas legais. dicas: uma seta simples indica que há algo a ser descoberto na sala onde se está - passe o mouse pela imagem na tela e, quando aparecer uma mãozinha, clique ali (e eventualmente arraste) pra ver o que acontece. três flechinhas junto da seta simples siginificam que é só clicar para mudar de sala. pra saber em que ponto do circuito o viajante está é só pressionar a barra de espaço. nem todas as salas exigem alguma ação do internauta: entre e limite-se a observar. e, sim, gás no botão de volume que os sons são parte da experiência. gute reise!

normal?

o tablóide local deu, eu não acreditei no que li e fui procurar o tal fórum. desânimo, vergonha e estarrecimento foram as emoções mais amenas que trespassaram este velho coração.

agora só penso em juntar um punhado de gente fina, elegante e sincera pra irmos morar nalgum planetinha promissor de uma aprazível nebulosa, talvez a ngc 604. quem sabe por lá dê pra recuperar alguns bobos valores humanos que andam fora de moda, como generosidade, respeito, solidariedade, tolerância, responsabilidade, decência, liberdade, altruísmo, inteligência, sensatez, equilíbrio. coisa de gente normal, sabe assim?

sábado, novembro 25

fetiches

tanto quanto ler, eu adoro ter livros. esse saiu há algum tempo pela companhia das letras, e fala justamente dessa tara. boa idéia em tempos de amigo-secreto.

sexta-feira, novembro 24

ameaça vermelha

rigorosamente daqui a 30 dias, minutos antes de escarafunchar o peru, quero muito encontrar tudo isso dentro do meu meião pendurado na janela. ou vou começar a acreditar que o gordo santa não existe...

ah, os pais da matéria são holandeses, gente genial, como já atestaram van gogh, escher e mondrian. e tem mais, muito mais deles aqui.

natalzinho do congresso

antes do apagar das luzes pras farras de final de ano, a maior parte da nossa peituda gangue do congresso quer garantir um dinheirinho a mais nos seus já coxudérrimos contra-cheques - só a título de remuneração mensal os nobres deputados ganham hoje, cada um, R$ 12.847. como não houve entendimento quanto ao montante do presente que nós, a ralé que provê as moedas, vamos dar aos senhores das leis, cindiu-se o plenário.

de um lado, o baixo clero, liderado pelo pepezão ciro nogueira, que acha justa uma equiparação com os togados do stf - o que contabilizaria módicos 91% de reajuste (ou salário de R$ 24.538 pra deputaiada). doutro, a turma dos medianamente vorazes, representada pelo petezão henrique fontana, que quer 'repôr a inflação' com 30% a mais na conta (ou R$ 16.701 todo santo mês). na ponta final, o pessoal sensato - os que valorizam os dentes que têm, a saber, gabeira, jungmann, heloísa helena e péres, quiçá o suplicy - que rejeita qualquer aumento.

o que a gente pode fazer? olha, não muito, que já se sabe no que vai dar mais essa indecência. mas se quiserem esbravejar e desafogar, sugiro e-mails pro líder dos 91%, pro defensor dos 30% e pra galera do nem-pensar-numa-afronta-dessas. eu mandei e tô me sentindo um pouco melhor.

de gays, beijos, grinaldas e pastores

uau! quanto avanço! será que vão engaiolar o estado brasileiro por impedir que gays se casem, com direitos e deveres iguais aos de quaisquer outros cidadãos? beijar seu bofe em público pode, mas nada de juntar oficialmente os trapinhos, mona!

aí, enquanto os progressistas (rarara!) da câmara aprovam essa miopia esdrúxula, a turma dos fanáticos religiosos pensa que tá perdendo terreno na defesa da moral e dos bons costumes. que nada! ninguém é mais obtuso que esses pobres injustiçados 'impedidos de protestar'. sim, a estupidez humana não conhece limites...

quarta-feira, novembro 22

good vibrations

fui escutar ontem, na p.f. gastal, o que tem a dizer o esmir filho, o cara que nos fez dar barrigadas este ano com o delicioso tapa na pantera.

é um gurizinho de 24 anos e encanta por, ao menos aparentemente, ser desprovido da soberba que costuma envolver os recém-saídos do mundo das sombras.

ele aproveitou pra exibir seu novíssimo curta, vibracall, que, depois de estrear há pouco no festival mix brasil, ainda tem destino incerto na web, mas promete renovar nosso arsenal de gaitadas onde quer que rode.

terça-feira, novembro 21

céu de música boa

já tem mais de um ano que as canções da céu preenchem o ar aqui em casa. desde lá eu dizia que tava demorando pra descobrirem a guria, uma paulistana de 26 anos que há tempos freqüenta os palcos do velho mundo e da cold america com uma mistura elegante de mpb, jazz, electro e scratches. eis que agora lenda, parceria dela com o ex-metrô alec haiat e a atriz graziella moretto (de domésticas e os normais), está na trilha do novo folhetim global das 19h. vai estourar, anotem aí.

o disco de estréia da céu - que saiu em 2005 e eu só encontrei na saraiva do praia de belas, mas que agora tá em promoção na fnac - foi produzido por outro puta craque, o também paulista beto villares, que, entre muitas cousas bacanas, já assinou as trilhas de cidade de deus, abril despedaçado e cidade baixa, esta com música da céu (chamada 'amore', não tá no disco da cantora).

segunda-feira, novembro 20

é gume, pefoas, GUME!

batizei este bloguezito pra brincar com a surradésima expressão que trata das cousas cujos efeitos são ambíguos. pois agora ando horrorizada com a quantidade de gente boa que acredita que as facas - ou o que quer que tenha cabo, lâmina e fio - são de 'dois legumes'. basta uma mera googleadazinha pra cair pra trás com tanta inguinorança. valha-me, são jorge guerreiro!

reclames dos bãos

entre todos filmes vencedores do 28º profissionais do ano, pelo menos dois justificam o prêmio e o bafafá entre os coleguinhas.

esse aqui, criado pela dm9ddb pra associação brasileira de transplante de órgãos, prova que dá pra ser leve e engraçado mesmo quando o assunto é sério. acabou papando o troféu nacional na categoria institucional.

o que levou a melhor na categoria mercado regional sul, obra da jwt curitiba, sugere que a propaganda paranaense pode ser tão fodona quanto a que a gauchada assina. e olha que o produto é bem marromeno.

sábado, novembro 18

aquáticas

vou raciocinar numa outra perspectiva da próxima vez em que ouvir alguém dizer que vai mergulhar fundo n'algo.

e se encontrar criaturas assim por lá, just relax.

the best way to get it on

se ainda existia alguma, agora acabou a desculpa pra não usar.
e quem achar caro que pense no custo/benefício...

sexta-feira, novembro 17

meu amigo, o marques

o gilnei foi sempre o primeiro alguma coisa na minha vida. e antes que vire sacanagem, eu explico. ele foi o primeiro cara que me mostrou o quanto era bacana a linguagem radiofônica. foi com ele a primeira das pouquíssimas brigas que tive no trabalho - com direito a porta fechada depois do expediente, vozes alteradas, olhos esbugalhados, rostos vermelhos, aortas salientes e dedos nos narizes. tudo assim, no plural, como convinha a um geminiano irascível e uma virginiana por demais contida.

foi junto com ele que devorei minha primeira vitela com batatas, lá no copacana, fartamente afogada em goles de valpolicella - e isso, mais tarde, acabou virando um ritual pra gente. foi o primeiro amigo a ouvir coisas que eu só contaria pra uma amiga. foi dele o telefonema empolgado que recebi há uns 12 ou 13 anos - 'biiiiiiiiiiiii, tu já ouviu falar num troço fantástico chamado world wide web?'. foi o gilnei o meu primeiro contato no icq. e foi pra ele o primeiro e-mail que mandei na vida.

foi com ele que fiz minhas primeiras compras pela rede - numa loja chamada cdnow, que agora atende por amazon. os meus eram dos pixies e do sonic youth e os dele, do velvet e do depeche mode. há dez anos, o gilnei foi o primeiro cara que me falou que afrociberdelia, do chico science, ia ser um clássico num dia não muito distante.

foi com ele e mais um monte de gente querida que passei meu primeiro réveillon na pinheira. foi com ele e mais um monte de gente querida que vi o calendário virar dos 99 pros 00, no jardim da casinha-com-cara-de-garopaba em que morei no ipanema, na zona sul da sorridente capital. foi ele o primeiro amigo a assar um churras debaixo do alpendre dessa casinha. e foi uma verdadeira epopéia: chovia furiosamente, inclusive sobre a churrasqueira. o gilnei, santanense brioso, manejou a espetarama brilhantemente com água pelos tornozelos. minha única obrigação era puxar a água com o rodo de vez em quando e manter sempre cheio o copázio de ceva do assador. a carne ficou divina!

foi o gilnei o primeiro amigo a dizer que tal pessoa, que se mostrava muy boazinha, carregava uma nuvem escura, feia e do mal. e essa tal logo depois colocou mesmo as manguinhas de fora. ele foi o primeiro a insistir pra eu escrever pro site dele, o baguete, lááá no início, e eu nunca quis porque não me achava à altura do talento que ele tinha.

no mesmo dia em que eu apaguei meu último cigarro, o gilnei, heavy user dos pitos, recebeu o sombrio diagnóstico de câncer na rinofaringe. isso foi há três anos e um mês. desde então, não houve um só dia em que eu não lamentasse e sofresse com a provação medonha por que ele - valente, otimista e altivamente - passava, sempre com a admirável fortaleza da taís por perto, mais a família, unidíssima, e, ao largo, pra não trazer mais desconforto, um séquito de amigos fiéis e apaixonados, como eu. eram cirurgias, quimios, radios, efeitos colaterais, exaustão, privações de todo tipo, depressão, incapacidades mis, inquietações, afastamentos, ausências.

mesmo com tudo isso, o tal câncer não recuou. virou metástase, foi pros pulmões, foi pros ossos, trouxe ainda mais dor. aí, logo na quarta-feira, um dia depois de eu voltar pra casa, o gilnei se transformou no primeiro amigo que eu precisei velar. ele foi embora e levou junto um pedação macio e cálido e divertido e frenético e intenso e bêbado da minha história. por aqui, fica só um rombo irrecuperável e uma saudade sem tamanho. mais as lembranças bacanas e gargalhantes e a certeza de que, ainda que o tempo tenha sido mínimo, valeu cada segundo à volta do marques véio (um dia, em vez de 'gilnei' usei o 'marques' e ele me confessou, emocionado, que sempre quis ser chamado assim), meu primeiro grandessíssimo amigo.

receba bem o turista

pedido de mãe a gente (quase nunca) não nega. por isso, no meu último dia em sampa, me abarrotei de coragem e fui comprar contas e miçangas pra dona léa em pleno centrão, região da ladeira porto geral com a 25 de março. quem conhece sabe que é cousa pra doido, mas mãe é mãe.

missão cumprida, quis ir à santa ifigênia me mimar com um mp3 player novinho em folha. desorientada que sou, prudentemente fui buscar ajuda em uma viatura da pm estacionada bem na esquina das duas ruas mais infernais da paulicéia. escolho perguntar pra uma soldadinha, que mulher entende mais de surto consumista:

- moça, por favor, como eu faço pra chegar na rua santa ifigênia?

o primor da resposta:

- olha, a senhora sobe a ladeira, dobra à direita e lá em cima a senhora pergunta de novo pra outra pessoa, que eu não vou ficar aqui lhe explicando, tá?

achei a rua sozinha, só de birra.

bienal gigantesca

impossível palmilhar toda a 27ª bienal de são paulo num único dia. fiz merda, reservei só o domingo pra ir ao pavilhão do ibirapuera e, claro, não consegui ver tudo o que queria. mas o que não me escapou aos olhos foi absolutamente encantador. semi-ignorante no assunto, arrisco dizer que a lisette lagnado foi trifeliz na seleção do tema ('como viver junto' é uma trilha bacana a ser seguida pela bienal da maior cidade sul-americana) e na convocação dos artistas.

o hermano león ferrari, que já imprimiu sua marca na bienal de porto alegre (dita do mercosul), foi o cara que mais me chamou a atenção, com uma estética que soa divertidamente agressiva à moral cristã - o sujeito sacaneou legal imagens de santos católicos, inclusive o outrora intocável jc, com putaria, sadomasoquismo, nojeiras, bestialismos e empalamentos. puta gênio, meu!

e o mais bacana foi perceber que a nossa incipiente bienalzinha, que completa uma década - e seis edições - no ano que vem, não deve quase nada à quase sexagenária coirmã paulistana. somos pobres, mas somos limpinhos, consistentes e dignos, viu?

volver

assisti ao novo almodóvar na sala 4 do morumbi shopping, exatamente ao lado daquela que entrou para o noticiário nacional em novembro de 1999, depois de um maluco metralhar uma pá de gente dentro dela, durante a exibição do hoje clássico 'clube da luta'. bizarria paulistana em estado bruto.

já a bizarria española de volver é boa bragarái! obviamente, carmem maura e penélope cruz desmontam a platéia com atuações megaluxuosas. don pedrito de calzada de calatrava retorna às origens com um filme farto em viajandices, piadas inteligentes e despretensão. bienvenido, cabrón!

masp

ok, o plano é ocupar meus dias em são paulo com a maior quantidade possível de programas-bala. já na quinta-feira, corro pro mítico museu da av. paulista. à exceção da brasiliana masp - moderna contemporânea, que exibe a brazucada esperta, não tá rolando qualquer exposição especial, só mesmo o acervo permanente - como se isso já não fosse tudibom.

deslizo pelo grande salão enchendo os miolos com matisses, lautrecs, modiglianis, chagalls, boschs e cézannes até dobrar uma esquina e dar de cara com a arlesiana, retratada pelo rei dos reis, vincent van gogh, no ano da sua morte, 1890. não sei se foi pelo inesperado da cousa, ou pela emoção represada, mas ao bater os olhos na pequena tela, dei dois passos pra trás, desabei num banquinho e chorei feito criança, alma lavada e levinha, levinha. afinal, não é todo dia que a gente tem a chance de reverenciar um ídolo, né não?

eu tô aqui?

aterrisso em congonhas e minha anfitriã não está lá. dou um tempo no saguão e logo ela atravessa bem na minha frente, sem me ver. dani pára diante dos painéis de chegada e fica olhando as letrinhas com uma cara perdidaça. estaciono ao lado dela, falo qualquer coisa, ela se vira, leva um susto e me diz:

- que tu tá fazendo aqui? tu não pode estar aqui, teu vôo ainda não chegou!

sabe aquela sensação de despertencimento? me gelou os ossos dos pés à cabeça. se eu não tô aqui, como é que eu me sinto aqui? será que o avião caiu e eu agora sou só um espectro? rarararararara! nada disso. eu tô é bem viva, foi só a danielucha, baita louca, que meteu na cabeça que eu vinha noutra companhia, cujo vôo chegava meia hora mais tarde.

inda bem, porque não conheço - e continuo não conhecendo, ora pois! - uma emergência psiquiátrica bacana em são paulo...

quarta-feira, novembro 8

abóbora na mala

legumes no ponto, pageviews aumentando e a escriba exercita as bochechas em alongados sorrisos.

hora de pedir licença à seleta audiência pra uma brevíssima pausa nas postagens.

vou respirar um pouco de chumbo, vou à bienal e vou rever amigos queridos. mas volto logo pra contar vantagem!

terça-feira, novembro 7

de volta às cavernas

toda vez que ouço coisas assim sobre a pena de morte passo mal só de pensar no quanto a humanidade do século 21 flerta com a barbárie.

a mim parece bem claro que defender e vibrar com a institucionalização do assassinato é retroceder burra e dramaticamente no fio da história.

prisão perpétua e trabalho duro é uma combinação penal tão mais inteligente, evoluída, justa - não com os criminosos, mas com as vítimas, porque perder a vida por ter feito (pouca, muita, excessiva ou inimaginável quantidade de) merda não é condenação, é redenção. será que ninguém percebe isso?

caracu

posso estar enganada. mas se o marcelo rech pudesse, ele fulminava o dorneles. enquanto o pequenino repórter desancava a indústria da informação, a fisionomia do enérgico big boss era das cousas mais aterrorizantes do mundo. eu tive medo. acho que o caco barcellos não, que esse encara de um tudo sem tremer.

segunda-feira, novembro 6

borne tubí wilde

fui resgatada da minha abissal ignorância por uma oportuna passada d'olhos pela revista arquipélago, onde descobri que a máxima citada pelo ex-007 no bobajolzinho ianque é da lavra de (quem? quem? arrá!) oscar wilde.

era, mesmo, chafurdante por demais pra ter saído da cabeça de algum roteirista hollywoodiano de septuagésima oitava grandeza...

domingo, novembro 5

não priemos cânico!

frase definitiva pra dizer naquelas horas-limite, quando pesa no ar a iminência da tragédia:

- vamos colocar a mesa na janela!

ouvi a magavilha de um billy zane muito decidido, num enlatado classe z que levou na globo (e onde mais seria?). não sei se funciona, mas que descontrai o ambiente, ah, descontrai!

sábado, novembro 4

de balas, mandíbulas e estúpidos

deu no jornal: na sorridente capital, desde o início do ano, cem armas foram levadas de vigilantes durante assaltos a banco. uma centena cheinha de berros perfeitamente legais, surrupiados de profissionais treinados, gente (pelo menos supostamente) preparada pra lidar com situações assim.

o que diziam mesmo aqueles discursinhos inflamados, exaustivamente escutados ano passado, durante a campanha que precedeu a votação do referendo sobre o desarmamento?

- o cidadão de bem que porta legalmente uma arma tem mais condições de se proteger dos criminosos!

- as armas que abastecem os bandidos são trazidas ilegalmente!

blablablablablablablablablablablablablablablablablablablabla...

é como aquela conversa de que pitbull é bicho manso e confiável, 'quem estraga é o dono'. ah, é! deve ter sido, então, por efeito da negligência suserana que mais uma dessas máquinas de carne e osso atacou e matou uma costureira de 35 anos na grande são paulo anteontem.

o proprietário, homem malvado que já havia sido preso por um roubo, pediu à mulher que segurasse a guia do bicho enquanto ele aprontava mais uma das suas perversidades - ajudar um sujeito bêbado a se levantar da calçada. a pobre assumiu a missão e se ajoelhou diante do atarracado quatro-patas pra afagar sua cabeçorra. como paga pela audácia, teve o pescoço aberto a dentadas pelo mimoso bichinho e assim foi arrastada rua afora, até que três balas disparadas por um jovem que passava pelo local pusessem fim à fúria canina - ainda bem que a população civil anda armada, né, hein? um bicho tão tranqüilo esse tal de pitbull...

que me linchem os defensores de uns e de outros, mas continuo acreditando firmemente que armas e pitbulls deveriam ser extintos da face da terra. mesmo que as primeiras sirvam, eventualmente, pra nos livrar das bestas-feras. uma e outra são produtos fiéis da imbecilidade humana - que inventa armas de fogo e cães de laboratório - esta, sim, a verdadeira culpada pela selvageria que empesta os nossos dias. pensando bem, bacana mesmo seria exterminar a tal estupidez homosapiense que, como se sabe, não conhece limites. aí, sim, o mundo seria mais supimpa. mas acho que já não tem mais jeito, não...

sexta-feira, novembro 3

farinha pouca, meu pirão primeiro

urrum, enquanto a escumalha passa até 15 horas esperando embarques e decolagens, o imperador-operário não demora mais que dez minutos pra levantar vôo em seu reluzente brinquedinho, rumo ao paraíso escondido de aratu. o hômi foi descansar, tadinho!

numa nação civilizada, o primeiro dignitário não hesitaria em dar exemplo. mas nós, os 190 milhões de selvagens botocudos, estamos a anos-luz de entender o que é isso, né, cara-pálida?

quinta-feira, novembro 2

o assassinato da traça OU terror na biblioteca

mais um encontro sobre jornalismo e literatura, lá no epicentro da feira do livro. o papo era blogs, novas mídias, revolução tecnológica. é quando meu mega-adorado CARDOSO, dazantiga nas artimanhas virtuais, arremessa à platéia um

- daqui a 30 anos, o texto (o livro, por extensão) não vai mais existir.

'oooooooooooooooooohhhhhhhhhhhhhhhh', mugiu a turba.

rarararararararararararara! é um pândego esse RUBIO!

(não demora muito a gente vai ler o alvíssimo gonzo na piauí. ueba!)

terça-feira, outubro 31

vida inteligente nas bancas

então, como eu ia dizendo, o jornalismo literário - ou o bom texto, como prefere a eliane - tem muito mais espaço reservado no gosto do leitor do que podem supor as fórmulas insanas da inteligentzia e do establishment.

prova disso é a revista piauí (brandida com júbilo pelo vitor necchi durante esse encontro sobre jornalismo literário), que chegou às bancas há menos de um mês, depois de ser lançada em meados de agosto na flip. o projeto é do joão moreira salles - o irmão mais novo do waltinho, que dirigiu o documentário 'entreatos', sobre os 30 dias finais da campanha do lula em 2002 - e sua condução foi entregue ao editor luiz schwarcz, dono e senhor da companhia das letras. também na equipe está um seleto pessoal do no mínimo, como o marcos sá corrêa e o xico vargas.

gestada na pança do cinema e da literatura, a revista mensal, no entanto, não pretende falar (só) de cultura. a idéia é abrir espaço pra uma vertente do jornalismo cujas peças são cada vez mais escassas na grande imprensa: a reportagem puro-sangue, aquela que não se preocupa com os grandes temas de interesse nacional, mas com histórias bem contadas sobre todas as tonalidades da experiência humana sobre a face da terra. tudo amarrado numa produção gráfica elegante: edição grandona (26cm X 35cm), papel bom (pólen soft 70g), ilustrações de craques como o angeli (que assina a capa), jaguar e alvim.

no primeiro número a gente se delicia, por exemplo, com matérias sobre o que se ensina nos cursos de telemarketing brasileiros; os detalhes da descoberta da menina salem, um bebê hominídeo que viveu na áfrica há 3,3 milhões de anos; um sujeito cuja profissão é experimentar e misturar pó de café; a inacreditável rivalidade religiosa entre vendedores de acarajé, na bahia; o estilo over do estilista guilherme guimarães, retratado pela caneta da danuza leão; a reentrada na atmosfera brasileira do genial ivan lessa, depois de quase três décadas de auto-exílio europeu; um conto inédito do rubem fonseca; uma versão em 12 quadrinhos de 'o sétimo selo', do bergman; um ensaio do fotógrafo orlando brito sobre o pavor que assola os homens de lula (ele, inclusive) em brasília; e mais dezenas de acepipes de letrinhas e imagens pra lá de apetitosos.

até os anúncios merecem atenção. tem da volkswagen, em página inteira, das havaianas, em página espelhada, e até um prosaico tijolinho de um produtor rural que aluga pés de jaboticaba em sua propriedade, em sabará/mg, para quem não vive sem, de vez em quando, devorar as frutinhas debaixo das árvores. formidável!

é como diz o anúncio de outra revista tribacana, a trip, publicado na estréia da piauí: 'a editora trip dá boas-vindas à revista piaui. agora ficou mais fácil encontrar alguém nas bancas para trocar uma idéia.'

mais uma barbada? então tá: promocionalmente, a revista, cujo preço de capa é R$ 9,50, tá saindo por módicos R$ 7,90. quem perder é mulher do padre.

segunda-feira, outubro 30

shit'n'diamonds

no ciclo de palestras sobre jornalismo e literatura promovido pela feira do livro, rbs e famecos, e que começou ontem, a fala de respeitado especialista no assunto me lembrou daquela conversa, que volta e meia ouço em algumas rodas, de que a academia vive desconectada do mercado.

pois então. uma das propostas do cara pra incorporar a produção caprichada do tal jornalismo literário (o 'bom texto', como defende a gigante eliane brum) aos padrões do voraz e apressado jornalismo diário impresso (o abrigo clássico do que a repórter classifica de 'mau texto') é mandar duas equipes diferentes pra cobrir a pauta: a tradicional, escrava da ditadura do lead, e outra especializada em apurar mais atentamente e produzir textos densos, sensíveis e criativos. a primeira se encarregaria do feijão-com-arroz da notícia e a segunda, do camarão gigante, uma retranca de luxo, sabe?

a grosso modo, é oferecer pro leitor, ao mesmo tempo, lixo e ouro. o texto surrado e o texto consistente. merda e diamantes. conforme o pesquisador, é uma tendência que vem sendo observada em muitas redações norte-americanas. que me perdoem os que preferem uma análise mais filosófica - ou menos mercadológica, que seja - do fenômeno. mas se tudo isso é mesmo verdade, o que vai dar de jornal falindo lá pras bandas do bush! porque tenho a impressão de que o que me ensinaram na faculdade sobre marketing, imagem, posicionamento continua valendo: ou o jornal define um foco editorial muito claro ou o leitor se bandeia pro lado de quem sabe o que quer - e o que faz. certo ou errado?

obrigada, não!

o fato de eu rejeitar um e mais um não significaria, nem por um momento, que eu devesse apoiar o outro e aquela, capisce?

livros na alfândega

passadinha rápida pela feira do livro no dia da abertura, sexta, rendeu um buraco no bolso e cinco mimosos voluminhos pacientemente garimpados: rimbaud, rilke, dalton trevisan, antonio cícero e mempo giardinelli. mais um oportuno anuário de artes cênicas de 1999 - antes tarde do que nunca! -, do qual orgulhosamente consto.

juventude porca é pouco

sábado desses, fugindo do desconcertante e inacreditável 'zorra total', caí no 'gordo freak show', da mtv. vou dizer, quando eu era adolescente fiz muita imbecilidade, mas o que vi na tevê revirou minhas asseadas tripas: um bando de moleques mijando dentro de um ringue de plástico onde, minutos depois, outros dois insanos deveriam protagonizar uma disgusting refrega. eca!

provoquei gaitadas na galera aqui em casa, mas na hora em que os dois mongos pisaram no chiqueirinho (substantivo muy apropriado, aliás), gani alto de puro nojo e troquei de canal antes que o primeiro escorregasse naquela porquice inominável.

'João Gordo apresenta o programa mais demente e sem propósito da MTV: Gordo Freak Show. Coisas nojentas, provas imbecis, reportagens bizarras, lutas insanas, crueldade e muita zoeira para embrulhar seu estômago. Não gostou? Foda-se! Aqui é o Gordo Freak Show!' é o que tá escrito lá no site do programa. fofo, né?

ah, pára lá! - diria minha vó milinha. pra ser descolado agora tem que virar um suíno sem noção? bons tempos aqueles em que o máximo da diversão impertinente era mergulhar a nossa senhora do bom conselho dentro da patenta, no banheiro do colégio, e puxar a descarga...

quinta-feira, outubro 26

pint time

oito da noite e a sorridente capital bufava ontem num calor de 29º. foi a senha pra dois chopes e meio, debaixo das árvores do barranco, quebrarem meu recorde alcoólico.

agora, pelas contas da nini, eu tô bebendo bem mais: umas três vezes por ano. e em quantidades assim... mi-cros-có-pi-cas.

tem uma guinness fechadinha me olhando lá de dentro da despensa. vuuuuush! corri e pus a tirana na geladeira. quero ver a lata preta duvidar de mim agora!

terça-feira, outubro 24

stone rolante

afumentem-se os indignados por parte do conteúdo ser traduzido da original ianque - e por que aqui seria diferente, se italianos, ingleses, australianos, franceses e até chineses lêem versões locais da rolling stone? passei os olhos pelo primeiro número da edição brasileira e gostei do que vi.

honesta e democrática, apesar de ser um tiquinho fútil. mas quem disse que o pop precisa ser engajado, né? empolgada, sacudi os bracinhos de contentamento com o guia esperto na finaleira da revista. shows, cds, dvds, games, livros, hqs, filmes, tá tudo lá, bem compiladinho.

custa R$ 8,90 e as minhas moedas já estão reservadas pra renovar o repertório todo mês.

waaaaaal!

passei a vida até aqui tentando entender que tipo de emoção teria movido o paulo francis e boa parte de uma geração no salto do trotskismo ranzinza praquele ultraconservadorismo debochaaaado. sexta-feira dessas tive a pequena epifania. e foi dentro de uma agência chulepenta da caixa econômica federal - justiça seja feita, uma das poucas a funcionar desde que o banco (público) havia entrado em greve, há coisa de semanas. mas isso não muda em um milímetro o que eu senti. a revelação me atravessou bem na hora em que o gerente da birosca tentava me convencer de que eles 'não tinham condições de atender' mais ninguém àquela hora (três e 15 da tarde) e que, a partir dali, só agendariam o atendimento para a segunda-feira subseqüente.

lá dentro, lugar sobrando nas poltronas de espera diante dos caixas. junto comigo, umas dez pessoas. entre nós, dois velhinhos, daqueles bem mal-tratados pela vida. ali, naquele momento, olhando pra cara vagaba do manda-chuvinha da área, me vi amaldiçoando funcionários públicos grevistas, por mais bem-intencionados que sejam. e olha que aquele, definitivamente, não o era, em que pesem a vozinha ciciante e o sorrisinho velhaco. porque, lá pelas tantas, o sujeito me dá as costas e resmunga 'não tenho que lhe dar explicações'. filho da puta desaforado! se ele olhasse bem em volta, tirando eu e duas mulheres igualmente furibundas com a situação, veria que quem tava ali era gente humilde e resignada bragarái, tipo servente de obras desempregado com carteira de trabalho na mão, desesperado pra sacar o fgts e garantir o feijão-com-arroz do final de semana.

pois é, e o senhor gerentezinho da cef, empreguinho garantido, salário robusto depositado todo santo mês na conta-corrente, ali, no saguão da agência, cagando lei e debochando de quem tem muito, mas muito menos do que ele. não restou alternativa que não me irmanar com o saudoso reaça patético. no dia em que os trabalhadores-do-brasil-uni-vos pararem pra se solidarizar com a massa desempregada e miserenta, e não pra fuder inda mais com ela, volto a achar greve a cousamarlinda do mundo. até lá, quero mais é que essa gente egoísta e arrogante vá catar coquinho no fundo do guaíba, com três pedras amarradas no pescoço, né, franz paul?

segunda-feira, outubro 23

meu querido maldito

da outonal berlim, pelos sempre bem-vindos scraps da talentosíssima e agradabilíssima fernanda farah, chega a dica literária que arejou meu final de semana: campos de carvalho, a chuva imóvel.

bacana foi descobrir de bate-pronto, na surpreendente biblioteca da eva, um voluminho do homem, datado de 1977 e com capa ilustrada pelo jaguar, já meio trôpego (o livro...), mas ainda muy legível, com o inspirador título retratado ali em cima. só não devorei mais rápido porque ele tá se despedaçando, o pobre, e porque ontem passamos o dia dizendo bobagens sobre a grama verde da redereca.

sei, entretanto, que quando eu virar a última página, campos de carvalho estará entre os meus dez escribas favoritos. não imagino quem vai ceder a vaga, nem em que lugar o uberabense vai se acomodar, mas que ele vai pro topo não tenho qualquer dúvida. ou tem outro lugar pra colocar um cara que escreve isto?:

'é verdade que nem todos lêem a minha verdade plural, escrita em linguagem simples, e eu não me sinto obrigado a dizê-la de viva voz, como quem recita uma lição de catecismo; eles que me leiam sem complicações, como se eu fora apenas um homem e não um poço de hieróglifos.'

nas picapes

os dias correm mansos.

debaixo da agulha tem rodado muito disso e desses.

a nota semipesarosa é que no próximo dia 8, quando eles estiverem mandando os primeiros acordes na sorridente capital, eu vou estar escalando um finger em congonhas, a alguns passinhos da bienal paulistana.

é... enquanto eu não tiver o poder da ubiqüidade, assim será.

segunda-feira, outubro 16

o que será?

o yamandu costa, segundo o joão bosco, no sem censura:

'violonista que não tem governo, nem nunca terá'.

petáculo!

sexta-feira, outubro 13

tietaaaaaage

o adorável arthur manda por e-mail um mimo pros meus ouvidos. diz o rapagão:

'Ao longo do segundo semestre deste ano, com sede no simpaticíssimo auditório da Livraria Cultura, a gente vai recebendo convidados, testando músicas novas, aposentando as mais velhinhas e descartando as que não rolam. Desta vez a novidade é a versão do tema de Missão Impossível, do argentino Lalo Schifrin, que acabamos de gravar para o CD Mofolândia (Allegro Discos), que reúne bandas bacanas da cena independente nacional fazendo versões pra temas de seriados dos anos 60 e 70.'

a versão dos guris pro clássico é de urrar de tão boa, apesar de eu ser trisuspeita, confesso. mas quem conhece sabe que eles são bacanas de verdade.

urru, urrei, ó reis!

quinta-feira, outubro 12

o CARDOSO

ele é alto.
ele é cool.
ele é ruivo.
ele é gonzo.
ele é magro.
ele é branco.
ele é patrício.
ele é prolífico.
ele é multimídia.
ele solta fumaça.
ele tem sustança.
ele é bom-caráter.
ele faz de um tudo.
ele tem bom-gosto.
ele tem causos bala.
ele é um gentil-homem.
ele é um baita organizer.
ele uma vez me salvou o cu.
ele e eu quase não nos vemos.
ele conta dez mil dias hoje e daí
ele quis arquivar ele inteiro. é que
ele cria um mundaréu de cousas lá e
ele tem aquela manha sossegadita, mas
ele já produziu um tanto assim, que agora
ele tem um SITE que guarda tudo o que é dele.

quarta-feira, outubro 11

fome de quê, ahn?

falazinha do outrora galã pierce brosnan num classe b visto dia desses:

'o melhor jeito de acabar com uma tentação é ceder a ela'.

ah, se a moda pega...

o avião é um avião

as diminutas imagenzinhas são de um dos vôos experimentais de longa distância do esperadíssimo novo airbus, o A380, o maior avião comercial do planeta.

difícil vai ser encarar aquelas latas de sardinha que chamam de classe econômica, depois dessa experiência celestial...

terça-feira, outubro 10

a volta da boêmia

já passou, mas vale o registro. foi dia 29 de setembro, lá na rósea ccmq, a mostra de cinema que rolou dentro da programação brasil contemporâneo, do projeto copesul cultural, e que teve, além das atrações na telona, lançamento de livro, exposição de arte multimídia, seminário com gente grande da cultura nacional e show com fodões da digníssima mepebê.

a idéia era tri: passar a noite inteira vendo curtas, médias e longas bacaninhas, com direito a, na abertura e nos intervalos, esticar o esqueleto no lounge armado do lado de fora do ex-majestic, lidar com uns workshops, sacudir as ancas na pistinha armada no saguão - o electro 'club d'essai' abriu a função, mas a gente chegou tarde e perdeu essa parte - e, na finaleira, lá pelas 5 da matina, forrar o pandulho com um café-da-manhã esperto. tudo por risíveis dérreal. e com uma gurizadinha descolada e bonitinha à volta (por mil carajos! tô ficando velha...).

buenas, à exceção do rega-bofe, tudo funcionou às mil maravilhas e deveria inspirar os promotores de festanças aqui nestes pagos. porque o mais insuportável de freqüentar a noite é ter que se enfiar num lugar enfumaçado, com aquela música gritando, sem chance de se divertir com outra cousa que não os bebuns tentando articular o corpo numa dancinha chocha (inda mais eu, que pareço um fantoche sueco quando o negócio é balançar). pois lá na mostra tu via um filminho, dava um tempo no lounge, outro na esquina, tomava um expresso nos cataventos, espiava a pista, voltava pro cinema e a noite passava mansinha, mansinha. fizemos tudo isso - a despeito do frio e do meu ataque-surpresa de rinite, com febre e tudo - e ficamos até às 4 e pouco, quando a crowd e a ausência de cheiro de café no ar nos sugeriu que o melhor era tomar o desjejum no ecoposto.

quem sabe noitadas assim viram moda por aqui? afinal, no sudeste-maravilha elas já caíram no gosto da moçada há tempos. se der pé, retomo aquele estilo notívaga de ser. os bons tempos me querem de volta. então, mexam seus traseiros gordos, senhores produtores!

ah! os dois ali em cima estão numa still do longa 'eu me lembro', do baiano edgard navarro, que levou um monte de candangos no festival de brasília, ano passado, e era a vedete da programação da mostra. bem bacana!

amigos, películas e gargalhadas

vivo dizendo que tenho os melhores amigos do mundo e não é caô. prova é que rolei de rir assistindo a wood & stock: sexo, orégano e rock'n'roll quase dois meses antes de o filme entrar em cartaz no circuito comercial, por obra e graça de uma amiga bem-relacionada...

pois daqui a dois dias chega a vez dos que não tiveram a minha sorte, mas que vão vergar de gargalhar tanto quanto nós naquela fria noite de agosto. então, pra potencializar o efeito hilariante, muita atenção na rediviva rê bordosa (que rendeu à rita lee um insuspeitado prêmio de atriz coadjuvante no festival de brasília deste ano) e no assombroso porco hardcore - meu deus! o porco é tuuuuuudo! - vocalista da banda retrô.

eu? é certo que vou ver de novo! agora na telona, pra rir o sêxtuplo.

segunda-feira, outubro 9

música superior brasileira

salão de atos da reitoria da ufrgs, sexta-feira, 6 de outubro, 21h30min. foram estas as coordenadas pra um dos melhores shows dos meus 35 anos de vida. no palco, joão bosco desfila os grandes standards de seu coxudo repertório e apronta algumas surpresas (uma versão ultrajazzy de 'inútil paisagem', do tom, e a companhia do guasca yamandu costa pra tocar a malandrinha 'benzetacil').

o mineiro mais carioca da música nacional reuniu um time de bambas das partituras - os mesmos que gravaram com ele em sampa, no início do ano, os desbundantes dvd e cd 'obrigado, gente!' - e, durante mais de duas horas, generosa e sabiamente, dividiu a ribalta taco a taco com os caras.

os gênios eram o mineiro nelson faria, nas guitarras e nos violões; o paraense ney conceição, no contrabaixo e baixolão; o trio carioca marcelo martins, nos saxes e na flauta; jessé sadoc, no trompete e flugelhorn; e aldivas ayres, no trombone; mais o também carioca armando marçal (o marçalzinho, filho do grande mestre marçal e neto do antológico marçal), na percussão, e o gaúcho kiko freitas, na bateria - dois dos mais competentes 'cozinheiros' em atividade no brasil.

como sempre acontece comigo quando o troço é bom de verdade, saí de lá integralmente abostada, tonta, viajandona, anestesiada e boquiaberta com tamanho talento. o do joão, desnecessário comentar. mas a banda, ah, a banda... os sujeitos são tão geniais, definem um paradigma tão sublime pra música, que o público chegou a aplaudir furiosamente o desempenho DURANTE cada execução! coisa de gente mal-educada, eu rosnaria noutras circunstâncias, mas até que deu pra perdoar a turba, diante daquela massa sonora de deslumbrar surdo...

em meio a tanta merda que a gente vê acontecer por aqui, é nessas horas que eu sinto um orgulho danado de ter nascido brasileira!

quarta-feira, outubro 4

caixinha de sons

respirei muito fundo antes de acessar pandora pela primeira vez porque eu sabia que aquilo ia mudar minha vida. não deu outra: viciei. e quem resistiria? a pessoa digita lá o nome do artista ou da música que gosta bragarai. aí, o site monta uma programação em streaming com aquilo e tudo o mais que soar da mesma praia. tipo, na minha estação 'astrud gilberto' hoje rodou a própria, tom, june christy, lena horne, judy garland, nara leão, nancy wilson, joão gilberto, elis, elizeth cardoso. o bacana é que sempre toca umas cousas novas - descobri músicas papa-fina de gente de quem nunca tinha ouvido falar, como rosalia de souza, tierney sutton, goapele.

claro, como o projeto é gringo, de uns sujeitos californianos, o banco de música brasileira ainda é meio limitado - embora o essencial esteja lá. e tem algumas restrições chatas, além da exigência de um código postal válido nos eua na hora de abrir a conta (dá pra usar, por exemplo, o 94612, que é de oakland, sede da pandora media, a dona da idéia) - teoricamente, o serviço só tá disponível pra quem mora no inferno de bush, por causa das diferenças de licenciamento autoral nos outros países. nada que seja tão incontornável pra quem curte música boa 25 horas por dia.

tô sabendo que existem sites similares, como o jamendo (mais focado nas novidades que surgem em todo canto do planeta, e basicamente alimentado pela produção independente) e o last fm (num esquema de comunidade virtual, com os usuários ranqueando as bandas e artistas solo que mais curtem). inda não mergulhei neles, mas acho que comecei bem com o pandora. porque aquela bicheira de rádio terra não transforma a vida de ninguém...

terça-feira, outubro 3

de muda para antanànarìvo

recebo um texto que circula pela rede e que é atribuído ao arnaldo jabor. autoria na internet é um assunto nebuloso, mas o jabor é um dos caras mais lúcidos deste país de bananas (tem definição melhor pra essa gente que reelege paulo maluf, fernando collor, josé genoíno, antônio palocci, valdemar costa neto, joão paulo cunha, sandro mabel, josé mentor, ricardo berzoini etc etc etc?). intelectualmente falando, o cineasta carioca, freneticamente odiado pelo petismo reinante, só tem um defeito lamentável (tá, tem dois, que levantar a bola do geraldo 'opus dei' alckmin é de última...): achar que o roberto jefferson é o grande benfeitor nacional.

pra mim está muito claro que o ex-obeso e ex-deputado (antigo aliado da tropa de choque do collor, lembram?) só botou a boca no mundo porque perdeu alguma regalia do esquema fedorento que há muitos anos empesta o brasil. ele (e o seu PTB), a máfia (e seu neoPT), os tucanos de rapina (e seu PSDB), os gatunos de sempre (e seu PFL), os ladrões de galinha (e suas legendinhas de aluguel), os patéticos (e seu PMDB), os fisiológicos (e seu PPS), os direitosos (e seu PP), os evangélicos oportunistas (e seu PL), os viúvos do getúlio e do brizola (e seu PDT) - pra ficar só nos mais notórios - são, e alguns sempre foram, a verdadeira escória deste país desdentado, faminto, sujo, equivocado e cego. e o PSOL, supostamente ainda impoluto, até que berra e esperneia, defendendo um sistema menos corruptível e mais justo com todos. mas quem agüenta aquele discurso rançoso 'contra o capitalismo impérialista éspoliante'?

meu voto do dia 1º foi esquizofrênico - um pra cada menos pior, espalhados por tantos pê-qualquer-coisa que nem dá pra enumerar. e, ai!, dia 29 de outubro vai ser o dia da escolha entre o medonho e o horrendo, aqui e lá também. me enoja só de pensar que a alternativa pra derrubar a decepção da estrela amarela são os bandidos de sempre, aqueles pefelês e similares que riem da nossa cara há anos. triste eleição... com sorte, até o dia 29 eu consigo uma passagem só de ida pra madagascar e não vou precisar me envolver nesse caldeirão de lama que virou a política nacional. com sorte...