terça-feira, março 11

apartados no parto

quinta-feira, março 6

inesquecível mestrezão

o mestrezão me ensinou a usar direito os porquês e a empregar a crase na hora certa.

houve mais lições, que agora eu não lembro (desconfio que uma delas era sobre a impessoalidade do verbo haver). mas juro que todas resultaram na minha relativa facilidade em lidar com as letras.

acho que foi também por causa das aulas hilárias do mestrezão, lá no universitário, que entrei na famecos em grande estilo. a saída, bom, a tortuosa saída não teve nada a ver com ele.

nunca esqueci o cara abrindo a camisa no meio da sala lotada pra exibir o peito pelado, murcho e feioso, que ele chamava, às gargalhadas, de 'selva erótica'. e tinha também aquela bisonha galinha de borracha que apavorava as colegas mais chiliquentas (tinha um nome, a quase penosa, mas agora eu também não lembro).

era um pândego, o mestrezão. e por isso (seria 'isto', mestrezão?) vai fazer uma falta danada, porque a maioria das gentes justifica seus problemas com a inculta e bela dizendo que pagou os pecados nas mãos de professores carrancudos e espartanos.

eu não. eu tive o mestrezão e, muito antes das aulas em carne e osso, houve os livros do mestrezão. sorte a minha. as novas gerações jamais vão saber usar direito os porquês. e sempre vão errar a hora certa de empregar a crase.

vai lá, mestrezão, ensinar pros colegas de eternidade como falar e escrever sem dar vexame. que lição assim, e um gênio assim, como tu, não há jeito de esquecer.

quarta-feira, março 5

terça-feira, março 4

bem-vindo faniquito

‘mas só pode ser chacota!’, berra tio aparício lá do quintal, antes de trotar pra dentro de casa, furibundo, brandindo a edição de hoje do tablóide local.

‘o problema não está em os veteranos saudarem esse ou aquele aluno, que uma cousa não exclui a outra, compreende? o vexame é que os acadêmicos da ufrgs, considerados os mais capacitados, dado o estreito funil do ingresso, deveriam dominar o idioma pátrio. mas não: os calaveiras vão lá e sujam a parede com este tumor ortográfico: bem vindos. ignoraram o hífen, minha filha! o indispensável hífen! e ninguém diz um ai sobre tamanho assassinato? onde é que nós vamos parar? valha-me, rui barbosa!’.

nem piei. o tio aparício é um tipo bem irascível, mas tá empapado de razão. mesmo que pareça exagero invocar a águia de haia por conta de um inocente hifenzinho.

segunda-feira, março 3

enquanto isso, na prefeitura mais próxima...

leio por aí que o ministério público investiga mais de 440 prefeituras em são paulo por indícios de corrupção.

arram. 440 municípios paulistas na mira da justiça. o estado todo tem 645. isso dá algo perto de 70% das prefeituras suspeitas de pura gatunagem.

ou: o rio grande do sul reúne 497 municípios. é como se houvesse quase um rio grande inteirinho roubando dentro do estado mais abastado do país.

e isso só em são paulo. imagina os outros 25 federados.

existe um jeito de limpar tanta bosta? cada vez desacredito mais. mas tem eleições municipais este ano. pelo menos dá pra tentar passar um paninho na cacaca.

agora, com perdão pela crueza, dá licença que eu vou ali na casinha vomitar e já volto.

sexta-feira, fevereiro 29

bodysnatchers

não, não. ando ausente, reconheço, mas só dos legumes. nos últimos tempos, não arrastei meus mimosos pezinhos pra além dos limites nacionais, continentais, terrenos ou estelares. e já faz tempo que sucedem cousas estranhas por estas bandas tropicais.

pois que o prezado tenha a bondade de se apropinquar pra revelar à minh'alma inquieta em que momento rolou a contaminação? quando os invasores de corpos operaram o milagre torto de transformar uma cantorazinha de tira-o-pé-do-chão-joga-a-mão-pra-cima em gran diva nacional?

quando foi que a sujeita, que nasceu, vive e vai morrer carregando a indelével faixa de brega, brega, ultrabrega virou (quase) unanimidade, arrastando hordas de seres até então considerados razoavelmente providos de bom senso para o poço fundo do repertório pobre, sujo e banguela? a tal conterrânea dos veloso já deu até cria - uma larvinha que, como a hospedeira, abusa dos saiotes doirados, penachos e do egocentrismo.

teria sido no mesmo instante em que a juventude linda, loira e vitaminada elegeu o pagodim pasteurizado como seu ritmo do coração? por onde anda a gurizada rocker d'antanho? se qualquer vivente da aurora da minha vida se declarasse fãzocão de jeitosmoleques, toquesdepele e quejandos, ganhava imediatamente um carimbo de bagaceira bem no meio da testa. agoira, não: quem contamina os ouvidinhos com frases feitas tam-tum-tic-tac-tam tá na crista da onda.

e já que é pra chutar o balde, lá vou eu: pisoteio a unanimidade desde que me assumi antifã number one dos bítols, os quatro boring guys d'além-mar. e também vedo cuidadosamente meus canais auditivos aos primeiros acordes de raul seixas, tom zé, jorge mautner, neil young e bob dylan. se bem que esses todos até têm seu valor, já que, como se sabe, o diabo só é diabo porque é velho.

agora, francamente: ivete sangalo é po-dre de chinelona.

azar, falei.


(precisava postar hoje, néam? sabe lá se vou estar viva no próximo 29 de fevereiro).

domingo, fevereiro 17

babel, merrrmão!

dia 18, agora, tá fazendo dois anos que os vovozões dos três acordes compactaram de vez as areias de copacabana (a propósito, o esperadíssimo devedê chegou custando uma fábula, mas não pode faltar na prateleira de quem engrossou a muvuca).

pra louvar aquele dia inesquecível, ressuscito a historinha que postei na volta da aventura, num espaço protolegumes:

eu e eva no leme, bem aboletadas na areia amóde incendiar o mate, minutos antes de começar o maior espetáculo da terra.

aproxima-se a figura crestada de sol. o estereótipo da carioca suburbana, uma espécie de tati quebra-barraco com um pouco mais de instrução e muito menos banha. uma raimunda com diploma de primeiro grau, pronto.

a maravilha da retórica malandra chega naquele sotaque da gema, apinhado de vogaissh eixtraissh e eisshtendidaissh, érressh puxadoissh e ésseissh eixhtremoissh:

- eaiiee, coléaga. forrrrtalece o isshquêro, aie, tem coandiçããum?

forrrrtalecemoissh, claro.

sábado, fevereiro 16

haverá sangue

yes, o nome original é disparado melhor que o mixuruca sangue negro. mas isto é só o início da conversa.

é que o daniel day-lewis quebra tudo, enquanto o paul dano e o dillon freasier trituram os despojos. e o p. t. anderson, mais uma vez, pare uma película estarrecedoramente fantástica.

a narrativa linear soa diferente das que ele normalmente põe na roda, mas nem por isso faz do filme qualquer cousa menos que masterpiece.

e ninguém duvida mesmo de que o troço é um clássico recém-nascido depois de sobreviver àquele início perturbador - e pelado de palavras -, notar a quase ausência de personagens portadoras de ovários e ficar de quatro com a fotografia pra lá de fodona.

olha, do jeito que a fita periga se empanturrar de estatuetas, é melhor correr pra garantir logo o lugar na fila. demorou.

(valeu o programaço, amiga planta!)

segunda-feira, janeiro 28

anactrônica

máquina que dá pau. e-mail que dá pau. backup que dá pau. rede local inacessível. internet inacessível. todo o teu trabalho inacessível.

hay dias que bate uma saudade morna daquele tempo em que o máximo de merda eram os dedos podres de tinta pra trocar o rolo da olivetti lettera.

e as margaridas da ibm elétrica, hein? ai, que saudadêra das margaridas das gordotas azuis.

quinta-feira, janeiro 24

lambe-lambe

e havia
(cruzes!)
o velho
de olhar
tão vasto

que quase
embaça
quando
embesta
de habitar

o terreno
estéril da
vida que
já foi
vivida

e não volta

quarta-feira, janeiro 23

mundo cão, mundo bão

embora sempre haja coiós pra considerar a internet uma bolha maligna com vida própria, criação do tinhoso pra desencaminhar de vez a pobrezinha da raça humana, tenho pra mim que a grande rede não passa de só mais um meio, uma outra via pra reproduzir em hi-fi o nosso mundinho, que tanto pode ser triste como colorido, né mesmo?

pois em tempos de reinado absoluto desta fartura de possibilidades, como, por exemplo, apresentar pra um filho o pai que ele nunca conheceu, porque morreu dois meses antes dele vir ao mundo? blogando, claro. pelo menos é assim que a cristiana guerra, publicitária de minas gerais, tenta resolver uma de suas contendas com o destino - ela que é órfã de pai e mãe e já perdeu dois nenês.

aí, sem qualquer aviso, o coração do namorado, o também publicitário guilherme fraga, parou de bater em janeiro do ano passado, quando o filhote deles ainda dependia só do cordão umbilical.

pra mostrar pro pequeno francisco, no futuro, o quanto seu pai era bacana, e também pra exorcizar uma dor assim, descomunal, cristiana respirou fundo e pôs mãos à obra. o resultado é um tocante diário sobre sua história de amor tragicamente interrompida. um relato valente e terno, que não deixa cair a peteca da nova paixão, o cisco, como ela chama o seu toquinho de gente.

mas esse é só o foco comovente da cousa. que a publicitária mantém outros dois blogs pra escancarar mais um causo de amor, agora com a moda. aqui ela posta fotos de seus looks diários e aqui, no melhor estilo brechó virtual, passa nos cobres os modelitos que já cumpriram seu papel na produção dela de cada dia.

um só vivente, infinitos ângulos. a internet, ignoram seu bobos críticos, é só o reflexo irretocável da experiência humana na terra bem assim como ela é: tonta de dramas e risos. e nada mais.

domingo, janeiro 20

ave, irmão de cor!

regozijem-se! ele voltou.

desnecessário dizer que com preciosidades.

quem não assinar o feed é mulher do padre.

sexta-feira, janeiro 18

e se o povo desse um tempo nessas de fazer carro e filho, hein?

o mundo
já tem gente e
autos demais.

chega de
recém-nascidos e
carros zero.

quer
herdeiros e
carangas?

tenha só
os que já
existem por aí.

sábado, janeiro 5

maior que a imagem

a safra de final de ano rendeu bastante alimento pra cabeça desta que vos rabisca.

um dos acepipes é o só numa multidão de amores, biografia da atormentada maysa lançada pelo jornalista cearense lira neto em meados do ano que expirou, e que eu, confessa apaixonada por histórias reais, tava há horas namorando.

além do fato de ser a autora e intérprete da antológica fundo-do-poço meu mundo caiu (cuja primeira gravação, aliás, completa 50 anos agora em 2008), eu sabia quase nada sobre a soberana da fossa. e sempre que ouvia falar sobre ela, duas únicas imagens me vinham à cabeça: os inconfundíveis olhões verdes e a macabra brasília azul toda retorcida sobre a ponte rio-niterói, resultado do acidente que a matou no início de 1977.

tá, também sabia que era dela a (pelo menos pra mim) versão definitiva de 'ne me quitte pas', mas não muito mais que isso. então, motivada pela leitura, fucei a web atrás de vídeos e quejandos, e acabei descobrindo o número que segue:



implico com aquela base de repertório bregadarkpassional da finada, mas depois de devorar o livro, e vê-la cerrando os dentes enquanto vomita a dor da canção de jacques brel, começo a desconfiar de que ela era mais, muito mais que um belo par de olhos e a maluca etílica que cortou os pulsos incontáveis vezes antes de se espatifar a caminho da então desabitada maricá. baita figura essa maysa, viu? baita figura.

isso tem que ter fim

mui bela e oportuna a campanha lançada pela rbs pra combater a violência no trânsito. acerta em cheio essa gurizada que enche a cara e sai a zunir rua e estrada afora com seus autinhos e motinhas potentes.

mas teima em ser berrada uma perguntinha incômoda: estaria o responsabilíssimo conglomerado dos sirotsky disposto a renunciar aos anúncios de montadoras e revendas de bólides, em nome da redução de acidentes?

yep, porque só os ignorantes, míopes e mal-intencionados não relacionam o torra-torra irracional de veículos automotores ao aumento insuportável das ocorrências, fatais ou não, de trânsito. as pessoas não têm casa, mas têm carro. e carro, como se sabe, é arma voraz nas mãos de quem não reúne equilíbrio suficiente pra guiá-lo.

precisa nem ser muito esperto pra juntar lé com cré: quanto mais condutores afoitos, despreparados e inexperientes circularem pela tupinilândia, mais incharão as estatísticas da carnificina motorizada. fundamentalmente num país em que a fiscalização ou inexiste ou é vaptvuptmente corrompida, a educação é pífia e os investimentos que poderiam qualificar as malhas viária e rodoviária vão parar em obscuros cuecões.

eu aposto a carteira de habilitação que jamais cobicei que se a sanha da indústria automobilística fosse minimamente aplacada, o número de acidentes despencaria num estalar de dedos.

e aí, rede brasil sul, que tal contribuir de verdade pra civilizar o trânsito?

quarta-feira, dezembro 19

gabba gabba hey, véia do bazar!

riram a valer de mim no indefectível almoço de final de ano da firma. mas é a mais cristalina verdade:

tive certeza de que tô envelhecendo a olhos vistos quando percebi que deixei de gastar meus caraminguás em loucas noitadas, tragoléus e afins e passei a investir, com inegável prazer, em lençoizinhos de malha, macias fronhas, loiças coloridas, talheres estilosos, panelas de ferro, copos e taças retrô e outros petrechos domésticos.

ALERTA AMARELO: se eu começar a assinar revistas de bordado e crochê, ou desenvolver um súbito gosto por bibelôs de biscuit, não hesitem em me internar num bom pub. e só me resgatem de lá depois de estarem convictos de que eu limpei os estoques de geladas embalada por tonitruantes petardos de punk rock.

ou será que serramalte e três acordes toscos também viraram peça de museu?

na ponta do lápis

segunda-feira, dezembro 17

pane no sistema. alguém me desconfigurou

há dias em que a pessoa só funciona em modo de segurança, néam.

a grandeza não é pra qualquer um


nhé! tá na vocação e no talento a clara diferença entre nós, os celestes campeões imortais, e eles, os pernetas vermelhos do aterro.

o herói supremo do nosso título mundial é o renato portaluppi, gênio da bola, ex-craque da seleção, técnico vencedor - segue firme no fluminense, campeão da copa do brasil deste ano e quarto colocado no brasileirão - ídolo eterno da nação tricolor.


o deles, coitados, é o gabiru, zero à esquerda rejeitado até pra festinha que tenta ressuscitar aquele golpe de sorte do ano passado.
a prova da insignificância é o anúncio do timinho publicado hoje no zero hora: não tem uma só foto do perna-de-pau que fez o gol salvador, mas logo foi descartado pra ir enganar no desnutrido sport, 14º no campeonato brasileiro deste ano. baita injustiça! que, afinal, a nulidade do sujeito combina em tudo com a história cocolorada.

é, enquanto eles enchem a boca pra dizer fifa - sim, sim, aquela instituição que desautorizou publicamente o uso de seu nome nos neons do chiqueirão... -, nós, únicos bicampeões da libertadores na região sul, seguimos sendo infinitamente superiores a eles. em tudo, em todos os tempos.

domingo, dezembro 16